MARCELO NORONHA | A eleição que também foi decidida por quem não votou
Mais de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas. A abstenção chegou a 21,08%, o maior percentual registrado em um primeiro turno desde 1998. Outros 2,3 milhões votaram em branco e aproximadamente 3,67 milhões anularam o voto.
Marcelo Noronha *
Eu continuo me incomodando quando ouço a expressão “festa da democracia” para definir uma eleição. Eu não consigo enxergar uma festa quando estamos diante de uma das maiores responsabilidades que um cidadão pode exercer: escolher quem terá o poder de governar, decidir prioridades, administrar recursos públicos e definir os rumos do país. Para mim, eleição é coisa séria. E os números do primeiro turno de 2026 deveriam nos fazer parar por alguns minutos para pensar.
Mais de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas. A abstenção chegou a 21,08%, o maior percentual registrado em um primeiro turno desde 1998. Outros 2,3 milhões votaram em branco e aproximadamente 3,67 milhões anularam o voto.
Eu olho para esses números e vejo muito mais do que estatísticas eleitorais. Eu vejo uma parcela gigantesca do Brasil que não participou diretamente da escolha presidencial. E existe uma questão que precisa ser colocada, ainda que ninguém possa respondê-la com certeza: quantos desses votos poderiam ter mudado o resultado?
Não estou dizendo que os 33 milhões de ausentes votariam em determinado candidato. Seria impossível saber. Também não estou dizendo que todos deixaram de votar por escolha política. Existem inúmeras razões para uma pessoa não comparecer às urnas. Mas existe uma verdade matemática que não pode ser ignorada: se milhões de pessoas que não votaram tivessem comparecido e distribuído seus votos de outra maneira, o resultado poderia ser diferente. É justamente aí que a abstenção deixa de ser apenas um número. Ela passa a fazer parte da própria história da eleição.
No primeiro turno, os dois candidatos que avançaram para a disputa presidencial ficaram separados por cerca de 2,2 milhões de votos.
Eu não preciso imaginar em quem votariam os milhões de ausentes para compreender a dimensão dessa diferença. Basta fazer uma pergunta simples: quantas vezes uma eleição pode caber dentro de 33 milhões de eleitores? A resposta é desconfortável. Muitas.
Por isso eu não consigo tratar a abstenção como um detalhe. Ela pode ser resultado de descrença, desinteresse, dificuldades de deslocamento, problemas pessoais, falta de identificação com os candidatos ou simplesmente da decisão consciente de não participar. Mas, qualquer que seja a razão, a consequência é concreta: quem não vota deixa que aqueles que compareceram decidam por todos. É uma escolha também. E talvez seja justamente isso que precisamos compreender melhor.
Eu posso até entender quem está cansado da política. Posso compreender quem está decepcionado com os políticos. Posso respeitar quem não encontrou nenhum candidato com quem se identificasse. Mas eu não consigo considerar irrelevante a ausência de milhões de brasileiros justamente no momento em que o país decide seu futuro político. Democracia não é apenas ter o direito de reclamar depois.Democracia é participar antes. É pesquisar. É questionar. É desconfiar. É comparar propostas. É conhecer a história dos candidatos. É formar uma opinião. E, finalmente, é entrar na cabine e fazer uma escolha.
Até mesmo votar em branco ou nulo é diferente de simplesmente desaparecer do processo, embora juridicamente esses votos não sejam considerados na definição do resultado. O Tribunal Superior Eleitoral deixa claro que votos brancos e nulos não são transferidos para nenhum candidato e não anulam uma eleição. Eu penso que precisamos recuperar o sentido de responsabilidade do voto. Porque depois que a urna fecha, não adianta dizer que o resultado não representa aquilo que eu queria.
A democracia oferece a oportunidade de participar antes da decisão. Depois dela, resta conviver com o resultado produzido pelos votos válidos. E aqui está a parte que considero mais dramática. Uma eleição pode ser decidida por uma diferença de alguns milhões de votos. Mas existem dezenas de milhões de eleitores que poderiam ter participado dessa decisão e não participaram.
Eu não sei como eles votariam. Ninguém sabe. Mas sei que, se tivessem votado, poderiam ter alterado a matemática da eleição. E é por isso que, para mim, o primeiro turno de 2026 deixou uma pergunta que vai muito além dos candidatos que chegaram ao segundo turno: O que estamos fazendo para que tantos brasileiros estejam deixando de acreditar que vale a pena participar? Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que a democracia brasileira precisa responder.
Porque eleição não é festa. É responsabilidade. E quando quase 40 milhões de eleitores entre ausentes, brancos e nulos ficam fora da escolha efetiva de um candidato à Presidência, eu não consigo comemorar.
Eu consigo, no máximo, refletir. E me preocupar.
(*) Marcelo Noronha, Jornalista






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