João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | 1977
Uma cantora galesa de voz rouca e marcante
Bonnie Tyler João Adolfo Guerreiro
1977 foi um ano especial. Por N motivos, bah. Alguns deles... Aqui no Sul, o Grêmio era Campeão Gaúcho, após os gigantescos bi nacional e octa estadual do Inter, abrindo um novo ciclo que em 1983 chegaria aos até então impensáveis e inatingíveis cumes da América e do mundo. No Brasil, na onda internacional, estavam em alta a música disco e as discotecas, com muitas luzes e instrumentos eletrônicos. E foi nesse ano que uma cantora galesa de voz rouca e potente estourou um mega hit no mundo, com uma sonoridade country rock dos hoje mitológicos anos 1960, meio na contramão.
It's a Heartache, de Bonnie Tyler, iniciava com uma batida de violão aço e levada de bateria básicas, que destacavam a entrada visceral da intérprete da canção simples, que falava da mágoa decorrente de um coração partido. Na época a suprema maioria dos brasileiros ignorava isso, pois era monoglota e tinha pouco acesso à traduções. Era só pelo som que curtiam. `A medida que a música avançava, baixo, cordas e vocais de apoio iam se somando e interagindo no arranjo, junto com um solo de guitarra à sessentista, básico, mas com feeling e expressivos bends - bem longe da velocidade e hipertécnica guita oitentista que viria. Simples, mas poderoso e emocionante.
Era loira, mas qual a cor dos seus olhos? Não dava pra saber, pois as TVs eram em preto&branco, ao contrário do despojado vídeo abaixo. Os jornais impressos, que estão terminando, eram igualmente P&B. Eram claros, dava pra ver, mas verdes ou azuis? Se aparecesse uma revista nas bancas com ela e o pessoal tivesse grana pra comprar, se viesse foto em close daria pra ver. De qualquer forma, Bonnie e seu hit marcaram o ano de 1977 e, mesmo na contramão, virou trilha da época. Quem diria? Pois é.
Tyler se reinventou nos anos 80. Em 1983, de gravadora nova e além do country rock e mesmo da finda discoteca, lançou a portentosa power balada com o frescor da grandiloquente sonoridade oitentista Total Eclipse of the Heart. Aí já dava pra entender que era outra canção sobre coração, agora sobre um em total eclipse, virando-se por olhos brilhantes. O vídeo colorido e ambicioso, cinematográfico e cheio de efeitos especiais inovadores, reproduzia uma visão onírica - e então dava pra ver em diversos closes a cor de seus (belos e intensos) olhos [sim, eu achava a galesa gata]. E, assim, por incrível que pareça, Bonnie duplicou o feito: outro estrondoso e marcante sucesso mundial. Grêmio e Tyler conquistando definitivamente o mundo. Não consigo avaliar qual sucesso foi maior entre as duas canções. Talvez elas formem um indissociável combo Bonnie Tyler.
Já fui em peça de teatro onde havia uma versão de Heartache. De Total Eclipse, tenho uma história legal. Nessa canção Bonnie ia até os extremos de sua voz, exigia da intérprete. Certa noite fui num barzinho em São Jerônimo ver Luciano&Damaris, que ainda cantavam juntos e eram casados - hoje o Luciano é Lucas Belgrado e tá na Holanda e a Damaris tá numa banda cover do ABBA. Marquei pro saudoso taxista e gaiteiro Nilson Lara vir me buscar num determinado horário, mas a apresentação se estendeu e ele chegou bem no momento em que eles iniciavam Total Eclise, que Damaris interpretava muito bem, pois é ótima cantora. Fui na rua e o Nilson me perguntou de quem era aquela voz. Ficamos ali, escorados no automóvel, escutando.
Vocês, claro, já sabem que Bonnie morreu dia 8, foi grande a repercussão nas redes sociais. Faleceu num hospital em Portugal, morava lá há décadas. Esteve no RS em 2022, no Araújo Viana. Que ano foi 1977, bah. Que voz e que olhos tinha essa loira galesa.
Um bom findi pra todos. Cuidem-se, vacinem-se, escutem Bonnie, vivam e fiquem com Deus.

It's a Heartache - YouTube
Total Eclipse of the Heart - YouTube



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