João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | As lágrimas sentidas do menino
Senti-me seco
O Estevão, ex-Palmeiras, é o melhor que temos hoje, mas não é genial como um dia foi o Menino Ney. Menino... João Adolfo Guerreiro
Ele foi a primeira pessoa a entrar na minha casa após meses de resguardo na pandemia, trazendo esperança. Possui olhos azuis vivos e marcantes, iguais aos do avô paterno. Ontem chorou muito ao final de Noruega 2x1 Brasil, lágrimas sentidas, verdadeiras, acusando a perda e a tristeza, o único entre nove pessoas.
Este 2026 foi o primeiro ano em que a eliminação da Seleção Brasileira não me afetou, pois foi a primeira vez em que eu realmente não nutria esperança em título, apenas esperava que chegássemos pelo menos numa semifinal e quiçá num terceiro lugar. Entretanto, tinha comigo que a queda poderia vir em qualquer momento, como ontem. Quando a gente perde a esperança, fica blasé e insensível. Logo, a perda de ontem não reverteu minhas expectativas, como acontecia até 2022.
Seis copas após 2002, fica óbvio que o futebol brasileiro já não é mais o mesmo, caiu de patamar, assim como o alemão e o italiano. As gerações 1950-1970 e 1994-2002 não geraram sucessores. Nosso último craque de grande porte, Neymar, está em fim de carreira e não produzimos outro, aparentemente. O Estevão, ex-Palmeiras, é o melhor que temos hoje, mas não é genial como um dia foi o Menino Ney. Menino...
Tem cinco anos o menino de olhos azuis. Estava assistindo ao jogo de camisa amarela da Seleção, como os pais e o irmão de um aninho. Um casal de tios com a filha e duas netas de um e quatro anos completavam a torcida familiar reunida no Jardim Europa - ah, europeus carrascos. Como eu disse, foi o único que chorou e ficou visivelmente tocado. Até agora à tarde ainda estava abalado, não queria levar lanche pra escola. Foi uma reação de criança? A menina de quatro anos e meio nem deu bola. Os adultos já estão calejados. São de uma geração que presenciou 1994 e 2002, portanto de uma geração vencedora da Pátria de Chuteiras, ao contrário dos nascidos de 2003 pra cá, que só ouviram falar, mas não viram nada. Acompanho copas desde1978.
Fiquei observando seu choro, refletindo sobre a vida e a importância do futebol para os brasileiros, que lhes livrou do Complexo de Vira-latas, era algo que unia a nação e fazia nosso povo feliz e confiante. Mais uma vez esperanço a partir do menino, de suas lágrimas de quem ainda acredita e sonha e, por isso, conheceu e manifestou a dor da perda coletiva. Não sei se minha lucidez é capitulação ante o mundo, refletida no futebol. Como será no futuro do menino? Ele ainda acreditará na Seleção e no Brasil? Precisaremos muito de brasileiros como ele, que acreditam e sonham. Senti-me seco. Crianças são esperança concretizada. Adultos não transformam o mundo.
Uma boa semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.



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