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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | ...E O Vento Levou, 90 anos

Um épico inesquecível, vale a leitura de cada uma das quase mil páginas

Reprodução
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | ...E O Vento Levou, 90 anos Vale a leitura de cada uma das quase mil páginas

João Adolfo Guerreiro 

Em 30 de junho de 1936, durante o verão estadunidense, chegava às livrarias o romance épico de quase mil páginas que se tornaria um dos maiores clássicos literários e cinematográficos do século XX: ...E O Vento Levou, de Margareth Mitchell (1900 - 1949), o único livro desta.

A maioria das pessoas conhece a história pelo icônico filme de 1939 de David O. Selznick (1902 - 1965), mas lhes digo que nem mesmo esse supera a aventura que é fixar os olhos naquele milhar de páginas, onde as personagens e o contexto histórico em que se movimentam - a Guerra Civil Estadunidense durante a escravidão - revelam-se como foram concebidas pela autora, crus até o osso, sem nenhum enfeite moral ou atenuante. Nele, você vê mais explícita a flagrante ignorância de Scarlett O'Hara e a amoralidade pragmática dela e de Rhett Butler, o casal através do qual se desenvolve a trama.

Mitchel residiu a vida inteira em Atlanta, Geórgia, não por acaso a cidade e estado sulistas onde ...E O Vento Levou é ambientado, durante o período histórico da Guerra de Secessão (1861 - 1865): seu pai era advogado e diretor da Sociedade de História de Atlanta. Assim, seria lógico esperar que sua literatura relatasse o conflito do ponto de vista da Confederação dos Estados do Sul. E ela realmente o fez.

Embora crítica aos motivos e a certa ingenuidade arrogante pelos quais a classe proprietária algodoeira sulista (a obra possui esse recorte social) foi à guerra, o romance relativiza claramente a escravidão nos estados da Confederação, pintando-a em tons róseos, embora não seja um texto que defenda o modelo escravagista. Nesse sentido, mesmo tratando-se de um livro publicado setenta anos após o final do conflito, ele retoma em parte o "espírito" dos romances sulistas do século XIX, anteriores à eclosão da Guerra Civil Americana, que refutavam A Cabana do Pai Tomás (1852), de Harriet Stowe (1811 - 1896), outro retumbante sucesso editorial, mas um retrato negativo da escravidão que vicejava nas plantações de algodão, denunciando o lado sombrio da fonte da riqueza do Sul.

A autora, quando da adaptação para as telonas de ...E O Vento Levou, observou essa "herança espiritual literária" ser suavizada. Se você assistiu o filme e acha que ele de fato relativiza o que era a escravidão nos Estados Unidos, creia: no livro isso é bem mais explícito, nas situações e nas falas das personagens, não incluídas no cinema.

Mitchell enriqueceu com os rendimentos tanto do livro quanto do filme. Um detalhe curioso foi o de sua morte. No romance, a heroína e personagem principal Scarlett, durante o feroz e apocalíptico bombardeio de Atlanta pelas tropas nortistas comandadas pelo general Sherman (1820 -1891), saiu pelas ruas da cidade tomadas por um pandemônio de pessoas a pé, a cavalo e em carroças efetuando desabalada e desesperada fuga. Por muito pouco Scarlett, seguidas vezes, não foi vítima de um acidente. Na vida real, Margaret Mitchell foi atropelada perto de sua casa, em 11 de agosto de 1949, por um automóvel. Ao contrário do livro, não havia um salvador Rhett por ali, enamorado e disponível.

Para os interessados na leitura, dá pra comprar tanto nos sebos de Porto Alegre quanto pela Internet. Sei que na Biblioteca Municipal Glauco Saraiva, em São Jerônimo, havia, em 2019, dois exemplares, edições da editora Hemus, tradução de Francisca de Basto Cordeiro, respectivamente de 1978 e 1986, esta última comemorativa ao cinquentenário de lançamento do romance histórico de Mitchell e em ótimo estado de conservação.

A de 1978 possui 800 páginas, enquanto a de 1986, 960. O motivo é a diagramação da mais recente, ocupando menor espaço de texto em cada página e, além disso, separando em página inteira cada início das cinco partes do livro e começando sempre na página seguinte cada um dos 63 capítulos (todos numerados em romano, em ambas edições). Na de 1978 o texto estava direto, todo acavalado. Também a de 1986 inclui uma biografia da autora que, na anterior, vinha nas orelhas, com um texto diferente e menor. Nas orelhas da mais recente aparece um interessante apanhado da repercussão da obra quando do seu lançamento, com números da vendagem nos EUA e na Europa.

Óbvio que li a edição comemorativa (imagem acima), além de comprar um exemplar pra mim na Estante virtual, em busca dessas belas publicações da Hemus (que, na capa, reproduzem o desenho do cartaz de lançamento da versão cinematográfica da obra). Encontrei a 4ª edição, de 1982, que foi lançada sem as orelhas, ao contrário das outras. No mais, é idêntica à publicação de 1978. Veio com uma dedicatória na capa: “Nadja! Nesta hora Duas coisas devo lembrar: Não abandone tuas virtudes E não deixe de me amar. Ulisses Natal 84”.

Ultrahipermegasuper recomendo a leitura do romance. Um clássico, baita livro, além de grande.




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