João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Agatha e o corpo na biblioteca
Nem precisou pintar a bunda para
João Adolfo Guerreiro
O que escrever sobre uma figura tão exponencial como Agatha Christie? Ora, o óbvio, né, mais do mesmo, sem inventar a roda literária, pois quem quiser aparecer que pinte a bunda de verde e amarelo e a exponha na janela - o que não é o meu caso.
Todavia, pra variar um pouquinho e dar um mínimo de originalidade a esta crônica, uso fotos da autora jovem, eis que, confesso, achei-a bem gata. Gostei. Como a chama o Jerônimo, numa corruptela do nome da autora, A Gata Triste. Gata, ok, concordo. Triste? Sei lá, a Gata era rica de berço e teve um primeiro casamento que durou mais de dez anos, tendo uma filha, mas o marido a abandonou por outra e ela meio que pirou. Sumiu por dias, hospedando-se num hotel usando o sobrenome da amante do infiel, pra sacanear ele. Igualmente usou o sobrenome do medonho pelo resto da vida, Christie. Ah, seu nome original é tri: Agatha Maria Clarissa Miller, nascida em 15 de setembro de 1890, não por acaso exatos 13 anos antes de outro ícone mundial, o Grêmio. Essa britânica filha de um ricaço estadunidense se destacou na juventude como cantora e pianista. Mas foi gigantesca na literatura, como escritora.
Tu acha Paulo Coelho e JK Rowling grandes? Pois estes não possuem o tamanho de Agatha: seus livros, somados, estima-se terem vendido mais de quatro BILHÕES de exemplares. Bah, só a bíblia e Shakespeare a superam, e veja que ela vendeu apenas nos séculos XX e XXI, enquanto os outros dois... Foi traduzida em 103 países e hoje terá (finalmente) um de seus livros debatido pelo Clube do Livro de Charqueadas: Um Corpo Na Biblioteca, de 1942. Aliás, esse 2026 marca o cinquentenário de seu falecimento, ocorrido em 12 de janeiro de 1976.
Um Corpo não é a sua obra mais famosa, dentre as mais de 80. O Caso Dos Dez Negrinhos (1939) foi seu livro mais vendido, estimados 100 milhões de cópias, sendo que o mais famoso é Assassinato No Expresso Oriente (19374), que já teve muitas adaptações pro cinema e a TV, assm como o igualmente incensado Morte No Nilo (1937). Entretanto, o Clube do Livro se reúne nas bibliotecas Vera Gauss e Romeu Lombardi (local da noite de hoje) e, assim, por afinidade, escolheu este título. Quem indicou foi a fã da autora Juliane Cardozo, que, como Agatha, é quieta e de pouca conversa. Ah, a charqueadense também escreve textos policiais. Já a leram no livro Conteiros de Charqueadas? Recomendo. Tem na Romeu Lombardi.
Em Um Corpo Na Biblioteca, a solteirona Miss Marple, uma espécie de proto perfiladora à Quantico ambientada nas grotas britânicas dos anos 1940, ajuda quatro polícias - um deles da Scotland Yard - a desvendar o crime: quem matou a jovem cujo corpo foi encontrado na biblioteca particular do casal de respeitáveis e conceituados cidadãos daquela pequena comarca? Agatha era uma enxadrista, pois são múltiplas as possibilidades de xeque-mate no desvendar da trama. Pode ser todo mundo, por N motivos. O livro nos prende, tendo a vantagem de ser curto, pouco menos de duzentas páginas. Um leitor mais atento encontrará nas páginas redigidas nos anos 1940 vários exemplos das famosas distinções de classe à inglesa, via os comentários preconceituosos de algumas personagens em relação ao corpo.
Então tá, era isso. Escrevi sobre a Gata e não precisei colorir os glúteos. Apareça hoje às 19 horas lá na Romeu Lombardi e seja mais um corpo na biblioteca a fazer um debate cabeça. Ultrahipermegasuper recomendo o livro.




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