João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Meio sopão de troco
Tudo é com Pix
Por que não havia nota miúda de dez reais nos caixas do banco e do supermercado João Adolfo Guerreiro
Perto do meio dia de sábado não consegui notas de dez reais nos caixas eletrônicos. Os três pratos de sopão que buscaria sairiam por 60 pilas. Bom, vamos lá.
Não tinham troco de dez pilas no QG do TNC, só de vinte. Sabia, pois ninguém mais usa dinheiro, só o Pix, essa invenção do Banco Central que incomoda o Trump. Não tenho Pix, não por causa do Trump, claro. Então uso cartão Banri débito ou grana, sou bem conservador e restrito quanto a essas coisas - ovelha não é pra mato. Já tinha pensado na saida, tava na ponta da lingua: "Dá três sopões e meio e tá tudo certo".
Tava o vereador de Charqueadas Patrick por lá e disse: "Ah, vai virar crônica isso". Não tinha pensado nisso, mas gostei da ideia e estou escrevendo. Tudo pode virar crônica, assim como tudo é Sociologia. A crônica é a arte das mínimas coisas cotidianas, enquanto, segundo um professor de pós que tive na UFRGS, tudo pode virar análise sociológica, eis que o ser humano é essencialmente social e histórico. Assim, o meio sopão de troco virou crônica.
Um dos grandes manuais de Sociologia é o de Anthony Giddens, que inicia pela análise de uma xícara de café e tudo que a envolve, do micro ao macro econômico, social, cultural e histórico. Bem na linha do que o professor acima referido havia dito em aula. E o meio prato de sopão? Podemos fazer análise parecida sobre, dentro dos parâmetros possíveis em uma crônica de jornal.
Por que não havia nota miúda de dez reais nos caixas do banco e do supermercado? Porque as pessoas preferem o dinheiro virtual, digital, ao papel-moeda, por praticidade e segurança. O mundo inteiro está assim! Calma lá, não é bem assim. Um exemplo: o Lucas Belgrado, músico, cantor e compositor charqueadense radicado em São Paulo e que atualmente trabalha na Holanda, disse-me uma coisa interessante durante um café na Degusty: que os holandeses usam muito cédulas e moedas, que só aqui no Brasil é que a coisa tá desse jeito. Como ele se apresenta em bares, restaurantes, eventos e nas ruas, verifica que a circulação do papel-moeda é intensa. Realmente, o Pix é coisa nossa, mega brasuca, só eu que não tenho. E o fato do Pix estar super inserido no cotidiano financeiro, de forma prática, sem os juros dos cartões, explica a ausência de troco.
Tudo é Pix, tudo. Os mendigos pedem um Pix! Então, pra quem não tem Pix, meio sopão de troco no lugar da notinha de dez pilas. Quase uma volta ao escambo! Ao famoso "Posso dar o troco em balas?" Todavia, fui contente pra casa com os três pratos e meio de sopão. Deliciosos.
A boa semana pra todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.



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