João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Os 70 anos de Grande Sertão: Veredas
O autor sabia que morreria, mas não acreditou
João Adolfo Guerreiro
"Nonada" - p. 23.
Primeiro e único romance do mineiro João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas foi lançado 8 de maio de 1956 pela Editora José Olímpico, há exatos 70 anos, hoje. É considerado por muitos - e concordo com eles - o romance-mor da Literatura Brasileira e um dos maiores da Língua Portuguesa e do mundo. Sem exagero. Leia pra ver.
"O passado - é ossos em redor de ninho de coruja..." - p. 538.
Passada num período incerto da República Velha, entre 1900 -1930, a história revela a amizade entre os jagunços Riobaldo "Tatarana" - o "Lagarta de Fogo" - e Reinaldo "Diadorim", o moço dos intensos olhos verdes. Sim, dá pra cortar com uma pexera a densa tensão emocional e sexual interdita entre ambos. Confessa Riobaldo:
"Diadorim é a minha neblina" - p. 40.
Entretanto, não se trata de uma temática sexual, mas sim Fausto pelo sertão de Minas Gerais, Bahia e Goiás.
"O diabo não há. É o que eu digo, se for... Existe é o homem humano" - p. 624.
O livro começa num futuro situado após a história principal que é narrada, com o católico Riobaldo já velho, em algum ponto dos 1950, contado seu passado ao compadre kardecista Quelemém. As aventuras, as contendas, os dissabores, amores e dores de quando ele e Reinaldo eram jagunços a serviço do grande Joca Ramiro, tempos dos chefes Medeiro Vaz e Zé-Bebelo e do "cão" Hermógenes.
"Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem" - p. 567.
"O diabo na rua, no meio do redemunho... Sangue. Cortavam toucinho debaixo de couro humano, esfaqueavam carnes" - p. 611.
A escrita é absolutamente única e inovadora, uma completa novidade para a época: linguagem coloquial, neologismos e um texto corrido, sem capítulos ou partes. Ouso escrever que ninguém passa imune ou incólume pelos sucessivos parágrafos de Grande Sertão, mas o ideal, creio, é adentrar o sertão de Rosa já trintão, pelo menos, eis que o mesmo é complexo como a vida, o mundo, a alma e o coração humano, exigindo um olhar minimamente maduro. Claro, quem quiser que o leia seja que idade tenha, dou testemunho de minha experiência com o texto: fui ler jovem e naufraguei; décadas depois, singrei-o, sendo arrebatado.
"A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. (...) O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas" - João Guimarães Rosa.
O AUTOR - Rosa escreveu muitos livros de contos. Em 1955, inclusive, lançou também Corpo de Baile, em fevereiro. Um outro famoso foi Saragana (1946). Grande Sertão: Veredas foi seu magnun opus, virou filme, minissérie na TV e graphic novel. Foi dedicado à sua segunda esposa, Araci, que trabalhou com Rosa na embaixada do Brasil na Alemanha, durante o regime nazista, salvando vidas - mas isso é outra história. Poliglota, foi, além de escritor e diplomata, médico.
"Viver é negócio muito perigoso" - p. 26.
MORTE INTUÍDA - Em 1963 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas demorou a aceitar, pois tinha notório medo de morrer se tomasse posse. Por fim, em 16 de novembro de 1967, concluiu que isso era bobagem e vestiu o fardão de imortal da ABL. Três dias depois teve um infarto fulminante, aos 59 anos. Parece romance, mas são os fatos.
"Travessia" - p.624.
Um bom final de semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, leiam Grande Sertão, vivam e fiquem com Deus.
REFERÊNCIA
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.




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