João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | À sombra das árvores da rodovia
A pandemia foi o pior período de sua vida
Pedalou pela faixa quente e pensou em dar uma parada nas sombras das árvores junto ao acostamento, aproveitando o vento fresco. João Adolfo Guerreiro
Saiu do Parque do Rodeio, dia quente de março, duas horas da tarde, sol abrasante sobre a pele. Pedalou pela faixa quente e pensou em dar uma parada nas sombras das árvores junto ao acostamento, aproveitando o vento fresco.
No momento que sentou, voltou seis anos no tempo, para março de 2020, para o mesmo local...
Naquele dia não eram apenas o sol e o calor que lhe fustigavam, mas também o medo. Estava assustado e estressado. Era o início da pandemia do coronavirus. Recém se dera conta de que, se a covid-19 havia matado fulano, beltrano e sicrano, poderia ceifar também sua vida, eis que se achava na mesma faixa etária e grupo de risco, devido a comorbidade crônica da qual era portador: diabético de pai e mãe.
Recordava muito bem do que pensara e sentira. O medo de morrer, o medo da morte dos pais, idosos. Também estava de bicicleta naquele dia e parara ali para aliviar o calor e o cansaço, amplificados pelo stress. Seguia em caminho inverso na ocasião, ia no serviço entregar o atestado médico a fim de conseguir a licença especial para permanecer em casa, que o Governo de Estado estava excepcionalmente concedendo. Usava máscara e luvas, estava tenso, mas não a ponto de perder a coragem para agir pela manutenção da própria existência.
Pensava que talvez morresse e, assim, a graça da vida terrena lhe veio com toda a força de seu real valor. Não queria morrer, recém completara 51 anos. Mesmo oriundo de uma família cujos avós maternos se foram aos 41 anos, queria mais tempo, mais vida. O pai estava firme aos 84 anos e a mãe somava 76, enfrentando problemas de saúde. Logo, tomando-os por parâmetro, tería uns 33 ou 25 anos pela frente, numa situação de normalidade. Os queria. Muito. Percebera o quanto existir é precioso.
"Será que passarei por essa? Será que ainda estarei vivo na Páscoa? No meu aniversário? Dia das mães? Dos pais? Da criança? No inverno? Na primavera? No verão? No Natal? Na virada do ano?" O futuro lhe parecia em suspenso, frágil, cambaleante. Cada data ultrapassada era vitória de vida. A expectativa e a tensão dominavam dias, semanas e meses, recolhido na segurança sanitária, emocional e psicológica do lar. Não recebia ninguém, tudo que era comprado, online, era higienizado metodicamente.
Aplacado o cansaço, redobrada a coragem, sentou na bicicleta e seguiu rumo ao serviço. Era preciso. Tinha de ser feito. Era a sua chance de sobrevivência ante algo inédito e desconhecido, fatal.
Ficaria 532 dias em casa, 17 meses sem sair do pátio. Sobreviveria. Voltou ao trabalho após estar imunizado com a segunda dose da vacina em setembro de 2021. Sobreviveu por ter tido cuidado extremo, mas não sem o apoio de muitos: esposa, médica, irmã, amigos, colegas de serviço, Governo do Estado, estabelecimentos comerciais online e seus entregadores, epidemiologistas e todos aqueles lideres e funcionários das esferas pública e privada que lutaram, nos vários setores e níveis, para que as medidas sanitarias fossem criadas e rigorosamente cumpridas. Sem todos esses, não estaria vivo. Lembra especialmente do governador de SP, João Dória, que trabalhou pela vacina Coronavac, a primeira.
Perdeu amigos, colegas e conhecidos, pessoas as quais gostava e admirava. Acompanhava emocionado o trabalho heroico dos profissionais de saúde, ficava em luto pela morte destes. Não compareceu ao casamento da filha em dezembro de 2020, pelo resguardo sanitário. Cuidou-se, rigorosamente.
Há seis anos seus pais estavam vivos. Os perderia com quase quatro meses de intervalo do óbito de cada um, em 2021. Ela por complicações da diabetes em 6 de setembro, ele por câncer de pulmão em 30 de dezembro. No mesmo setembro, dia 18, nasce sua primeira neta. Seu pai teve tempo de conhecê-la e segurá-la no colo, tem a foto, onde está sorrindo, pois a bebê soltou um pum. Nenhum deles pereceu de covid. Um colega perdeu os pais para ela num intervalo de dias, assim como o deputado Beto Albuquerque.
Em outubro de 2025 nasceria sua segunda neta...
"Sombra boa, vento legal". Ali estava, agora, saudável, em paz tranquilo. Não pensou que voltaria a frequentar aglomerações como um Rodeio novamente. Mas sim, o normal voltou. Montou na bicicleta e tomou o rumo da casa, ânimo redobrado pela parada.
A pandemia foi o pior período que enfrentou na vida. Sobrevivente de "guerra". O filósofo escreveu que o inferno são os outros, mas minha experiência diz que os outros nos salvam no inferno. Alguns com o custo da vida, como os profissionais da saúde. A vida terrena é uma graça preciosa. Suas netas são lindas.




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