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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Brizola, 104 anos

Em qual lado ele estaria?

Arquivo Pessoal
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Brizola, 104 anos Ontem, se vivo, Leonel Brizola faria 104 anos

João Adolfo Guerreiro

Ontem, se vivo, Leonel Brizola faria 104 anos. Um grande gaúcho, brasileiro e cidadão do mundo no século XX, nascido em Carazinho (foto acima), em 22 de janeiro de 1922. Uma biografia e tanto a dele. Não fosse pelo Golpe de 1964, poderia ter sido presidente do Brasil. Dizem até que teria vencido Collor em 1989, se tivesse ido pro segundo turno no lugar de Lula. Se, logo, nunca saberemos.

Vi Brizola no seu auge, ainda. Ao voltar do exílio, em 1979, criou o PDT - Partido Democrático Trabalhista. Foi candidato a presidente em 1989 e 1994 e governador do RJ. Naquele tempo, entretanto, este cronista que vos escreve já era um socialista democrático seduzido pelo distintivo de classe do PT. Os comunistas não me seduziram, por um lado, devido a experiência totalitária no leste europeu, e os trabalhistas, por outro, por serem fruto de uma ideologia política de conciliação de classes. Logo, o PT, essa mistura estranha e única de cristianismo católico libertário, sindicalismo operário, movimentos camponeses e grupos trotskystas temperado ideologicamente pelos ideais da Nova Esquerda da Europa pós Segunda Guerra, visceralmente democrática, foi o caminho que muitos jovens da minha geração trilharam, numa militância quase sacerdotal por um mundo democrático e igualitário. E, quem diria, o PT de hoje, o que vingou e deu certo, é um partido de conciliação de classes. A criação do PSOL, após a reforma de Previdência do primeiro governo Lula, e o então poderoso ministro José Dirceu, dizendo num Fórum Social em Porto Alegre que o PT era um partido de Centro, não me deixam mentir.

Mas eu ia dizendo que vi Brizola ainda no seu auge. O Brizola ainda com o gás da Legalidade de 1961, ex-prefeito de Porto Alegre, ex-governador do RS, deputado estadual e federal. Literalmente, o vi em 1990, na Rua da Praia, em Porto Alegre, em cima de uma caminhonete, junto com um já nonagenário Luís Carlos Prestes, sendo ovacionado por uma multidão que acompanhava o veículo. Prestes, outro grande. Aliás, permitam-me o parêntese: no século XX o Brasil foi pródigo de grandes lideranças gaúchas, que fizeram história aqui e no mundo: Prestes, Brizola, Jango, Osvaldo Aranha, alguns dos presidentes militares e, o maior de todos os estadistas brasileiros - senão o único - Getúlio Vargas. Todos beberam nas fontes positivistas gaúchas da virada dos séculos XIX e XX, lideradas por políticos autoritários como Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tomando o Brasil via o Golpe de 1930 e, posteriormente, criando o Estado Novo.

Depois Getúlio industrializou via Estado o Brasil e, no embalo das revoluções comunistas pelo mundo, faria várias concessões à classe trabalhadora brasileira, avanços incontestáveis que produziram ódio de classe na desde sempre reacionária elite burguesa do Brasil, avanços depois ampliados por Jango - e que mais seriam se as reformas de base não fossem brecadas pela Ditadura Militar. Pra falar de Brizola é imperativo fazer esse resgate, eis que esta é a sua gênese política e sua rota histórica, no caminho de ampliar e manter as conquistas da Era Vargas, atacada pelos governos liberais que se seguiram, de Collor à FHC, chegando até Temer e Bolsonaro, sempre prejudicando a classe trabalhadora nacional. Duas curiosidades: o PT, devido a influência de sua ala sindical, era inicialmente contrário à CLT varguista, mas hoje não mais; os militares de 1964, verdadeiramente nacionalistas e patriotas - não como sua versão farsante de 2018, liberal e entreguista – mantiveram as conquistas da Era Vargas.

Voltando para o início do texto, agora: Brizola, em 1998, fez as pazes com o "Sapo Barbudo" Lula, sendo candidato a vice-presidente em sua chapa. Digo isso pra já especular sobre o seu legado no sentido de conjecturar em que lado ele estaria hoje, quando teremos eleições no RS e Brasil, embora isso, pelo dito até este momento neste artigo, pareça óbvio, né? Direitos sociais, trabalhistas, previdenciários, saúde e, principalmente, educação via um Estado forte e nacionalista, eis basicamente seu legado político. Logo, não consigo ver o Brizola da CRT, CORSAN e CEEE ligado a um liberal como Eduardo Leite, que privatizou as duas últimas, piorando serviços e enfraquecendo a capacidade de intervenção estrutural estatal na economia. Sua neta Juliana Brizola, creio, representa esse legado. Em nível nacional, caso o PDT não tenha candidato, como o foi Ciro Gomes, penso que estaria com Lula, frente ao recrudescimento da extrema-direita no Brasil e no mundo, agravado pelo imperialismo sem freios de Trump, militarista.

Como Brizola foi, sobretudo, um político de ação, e não um teórico trabalhista como Alberto Pasqualini, entendi que um texto sobre seu aniversário de 104 anos só teria sentido se jogasse luz sobre o momento político, a partir de sua história e legado. E creio que, um político vencedor em vida, na morte será cada vez mais uma referência para o presente e o futuro, devido a realidade que se avizinha para as futuras gerações onde, creio, o que fez será o farol durante a tempestade, pra se usar uma metáfora bem conhecida. E, pra usar outra, Brizola jamais será dinossauro num museu de política, mas sim fênix nas lutas do povo explorado e oprimido. 

Um bom final de semana pra todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.




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