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São Jerônimo, RS,26/01/2026

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João Adolfo Guerreiro

JOÃO GUERREIRO |Os Supridores (da gurizada medonha)

"Nascero pobre, morrero pobre"


JOÃO GUERREIRO |Os Supridores (da gurizada medonha)

João Adolfo Guerreiro

Pedro e Marques são dois supridores de um supermercado em Porto Alegre que, por ideia do primeiro, resolvem mudar de vida e ganhar muito dinheiro, saindo da pobreza. Basicamente é essa a trama que envolve os protagonistas do livro Os supridores, de José Falero, que será debatido hoje à noite no Clube do Livro de Charqueadas.

Interessante, depois de lermos no mês passado Caminhos Cruzados, de Erico Verissimo, ler outra obra sobre Porto Alegre, de cunho semelhante, escrita 85 anos depois, a fim de cotejarmos no Clube a realidade social do passado com a atual, via literatura.

O livro é muito bom, hipersupermegahiper recomendo. Assim, resolvi dar uma palhinha dele pra quem não leu, pinçando alguns trechos pra vocês conferirem a linha do mesmo. Eles foram retirados, em sua maior parte, de diálogos entre Pedro e Marques. O livro possui ação, drama e reflexão social em suas 300 páginas. 

"[Desmatamento como] Ação corrosiva da metástase civilizatoria trazida nas caravelas havia mais de meio milênio " - página 18.

"Mas Pedro já estava familiarizado com imperfeições, como todo pobre que se preza, ainda que não se considerasse merecedor delas, como todo pobre que se despreza" - página 20.

"Seus bisavós tinham sido pobres a vida inteira, seus avós tinham sido pobres a vida inteira, seus pais tinham sido pobres a vida inteira: até onde iria isso?" - página 23.

"Pois, como em qualquer aglomeração de pobres, na Lupicinio Rodrigues também havia pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração" - página 33.

"Todo mundo fica imaginando uma vida melhor, sangue bom. É o que mantém todo mundo vivo, com vontade de viver, na real" - página 63.

"Sem dúvida as novas condições financeiras em que o jovem se achava haviam lhe dado uma percepção diferente das coisas. (...) Experimentava, pela primeira vez, algo muito próximo da plenitude. Uma tranquilidade. Um tipo especial de satisfação" - página 159.

"Na pobreza, que é outro tipo de tragédia, não é diferente. Me mostra um pobre que tenha ficado bem de vida, mano. Me mostra, que eu quero ver. Me mostra alguém que tenha nascido pobre, pobre que nem a gente, e que depois tenha conseguido deixar de ser pobre sem praticar crime nenhum, e sem ganhar na loteria, é claro. Me mostra, sangue bom. Porque pra cada um que tu me mostrar, eu te mostro um milhão que pobre nascero e pobre morrero" - página 180.

 

"A força de vontade não faz a menor diferença, nem numa tragédia, nem na outra. O fato é que as tragédia simplesmente deve, ou deveria, ser evitada. Um avião pode cair, Marques. Tudo o que é possível fazer prum avião não cair deve ser feito. Do mesmo jeito, a pobreza não pode existir. Tudo o que é possível fazer pra pobreza não existir deve ser feito" - página 180.

"Uma vez, quando eu trampava numa outra rede de supermercado, eu vi uma coisa que nunca vai sair da minha cabeça. (...) Eu estava no estacionamento, recolhendo os carrinho de compra vazio que os cliente abandonava ali mesmo, depois de botar as sacola no porta-mala do carro e ir embora pra casa. Nisso, chegou uma nave. Mas tu tinha que ver a nave que era! Um sedã importado, foda pra caralho! Era carro de tiozão, tá ligado, dai eu achei que ia sair um veio ali de dentro. Mas, te liga: foi um cara da minha idade que desceu do carro. Dezoito ano; vinte, no máximo. Tinha que ver o estilo do maluco: ele tava metido no terno do James Bond, cheio de marra. E é claro que não podia faltar a bond girl: a mina que tava com ele, mano, tu gozava só de ver ela tirar o vestido. Um cara da minha idade, vestido daquele jeito, com um carro daquele, com uma mina daquela. E eu ali, recolhendo os carrinho de compra vazio " - página 180.

"De que jeito tu acha que ele conseguiu uma vida tão boa com tão pouca idade? Será que ele começou onde a gente começou?" - página 183.

"Como é que esse monte de gente melhora de vida? Se arrastando e se humilhando que nem verme? Puxando bastante saco de patrão, até ser promovido? Trampando que nem burro de carga? Caguetando os colega do trampo que se comporta mal e sendo odiado por eles? Ou será que é por qualificação? Tendo que trampar e estudar ao mesmo tempo? Vivendo que nem um zumbi, sem dormir direito, até se formar? Gastando o que tem e o que não tem com passagem e livro?" - página 179.

"Mas tem gente que nasce no castelo e passa a vida toda lá, entre os baú de tesouro, tendo tudo do bom e do melhor, achando tudo uma maravilha: a única preocupação dessa gente são os monstro abominável que vive longe do castelo: monstro como eu e tu. E, bom, do ponto de vista deles, é o seguinte: a gente só nasceu nas condição que a gente nasceu porque os nossos pai foro preguiçoso; a gente não pode querer o que eles têm, porque isso seria inveja. (...) Só que eu tô cagando e andando pro ponto de vista deles" - página 183.

"Não pensa que eles pensa em vinte conto como tu pensa em vinte conto. Eles pensa em vinte conto como tu pensa numa moedinha de cinco centavos que veio no troco do pão. Eles crescero vendo os pai dar vinte de gorjeta pro entregador do rancho, mais vinte pro entregador de pizza, mais vinte pro porteiro. Eles ganha de mesada mais do que a gente ganha de salário e não tem conta nenhuma pra pagar" - página 174.

"Porque quando tu ganha grana demais, quanto tu é dono de coisa demais, sem ter feito por merecer tudo o que tu tem, isso significa que os nego que fizero por merecer tão a ver navio, por culpa tua" - página 46.

"E o que tu acha desse derramamento de suor, lágrima e às vezes até sangue, que a gente já conhece faz tempo, que os nossos coroa já conhecia antes de nós, que os coroa deles já conhecia antes deles e que só serve pra fazer crescer a fortuna dessa gente nojenta que passa metade do ano em Torres e metade em Gramado, sem preocupação nenhuma com nada, enquanto a gente fica aqui, desperdiçando a vida nesse vaivém entre a casa e o trabalho? Hem? O que tu acha disso?" - página 54.

"E o maior pecado do nosso mundo, pro qual a lei tá cagando, o maior pecado, a injustiça mais terrível, a mãe de todos os problema social que tu puder imaginar, o maior pecado é tu dissociar o dinheiro do trabalho, é tu fazer um dinheiro produzido por um trabalho ir parar nos bolso de quem não participou desse trabalho"- página 56.

"Nem as pessoa que mais sofre neste mundo de injustiça, nem elas gosta da ideia dum mundo justo quando tu explica pra elas como ia ser um mundo justo. Sabe por quê? É porque num mundo justo, justo de verdade, ninguém ia conseguir ficar rico'" - página 59.

"O que eles mais quer é um dia virar burguês também. O que eles mais quer é a chance de enriquecer às custas do trabalho alheio" - página 60.

"Mas não te engana, não, mano. Não pensa nos pobre só como uma pá de coitado. Para um pobre virar um burguês filho da puta, não precisa muita coisa. Basta uma oportunidade" - página 60.

"Mas nunca, Marques, nunca a capacidade máxima de trabalho duma pessoa vai ser o suficiente para que essa pessoa consiga acumular riqueza. Não tem como. Tendeu? Só com o teu trabalho tu não vai ficar rico nunca. A única forma de tu acumular riqueza é aproveitando algum mecanismo social, legal ou ilegal, pra te adornar de mais dinheiro do que a tua capacidade máxima de trabalho diz que tu merece" - página 60.

As reuniões do Clube do Livro de Charqueadas acontecem toda a terceira quarta-feira de cada mês, na Biblioteca Pública Vera Gauss, às 19 horas, sendo abertas ao público. Exemplares dos livros se encontram à disposição na Vera Gauss, para empréstimo. Em fevereiro, dia 18, o livro a ser debatido será O avesso da pele, de Jeferson Tenório. 




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