MARCELO NORONHA | A doença que a ciência venceu, mas a desinformação insiste em ressuscitar
A ciência não é uma torcida organizada. A vacina não é uma bandeira partidária. E a proteção de uma criança não deveria depender da ideologia de seus pais ou daquilo que alguém publicou nas redes sociais.
Dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, 344 estão abaixo da meta de 95% de cobertura vacinal contra o sarampo Marcelo Noronha (*)
Eu fico indignado quando percebo que uma doença prevenível, contra a qual a ciência desenvolveu uma vacina segura e eficaz, volta a representar uma ameaça porque parte da sociedade negligencia a vacinação. A reportagem publicada pela GZH em 23 de outubro apresenta números que deveriam provocar muito mais do que preocupação. Deveriam provocar uma reação imediata do poder público e de toda a sociedade.
Vamos aos números: Dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, 344 estão abaixo da meta de 95% de cobertura vacinal contra o sarampo. Isso representa aproximadamente 69% das cidades gaúchas. A situação fica ainda mais preocupante quando observamos a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral, responsável pela proteção contra sarampo, caxumba e rubéola. O índice estadual é de apenas 76,36%, muito distante dos 95% recomendados.
E existe outro número que merece atenção: a primeira dose apresenta cobertura de 92,37%. Ou seja, existe uma diferença de 16,01 pontos percentuais entre a primeira e a segunda aplicação. Muitas famílias levam suas crianças para iniciar a imunização, mas não retornam para completar o esquema.
Não estamos falando de um problema recente. Segundo a reportagem, o Rio Grande do Sul não alcança a meta de 95% para a segunda dose desde 2013, quando ela passou a ser indicada para bebês. É uma década inteira de dificuldades para manter uma proteção coletiva que deveria ser prioridade.
E o cenário internacional aumenta a preocupação. Conforme os dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) apresentados na reportagem, entre 4 de janeiro e 3 de outubro de 2026, as Américas registraram mais de 55 mil casos confirmados de sarampo e 77 mortes. O número de casos representa um aumento de 4,8 vezes em comparação com o mesmo período de 2025.
No Brasil, até o início de outubro, foram registrados 52 casos importados da doença: 41 em São Paulo, 10 no Amazonas e um no Rio de Janeiro. São casos contraídos no exterior, sem evidência de circulação expressiva do vírus no território nacional.
No Rio Grande do Sul, os últimos registros mencionados na reportagem ocorreram em 2024 e 2025, ambos associados a pessoas com histórico de viagens internacionais. Nenhum desses casos evoluiu para óbito. É justamente aqui que precisamos compreender a dimensão do alerta. Não podemos esperar que o vírus encontre uma população desprotegida para depois correr atrás de soluções.
A vacinação é a principal ferramenta para impedir que casos importados se transformem em surtos. Então, eu pergunto: como chegamos ao ponto de permitir que uma conquista tão importante da ciência seja colocada em risco? Não aceito a ideia de que a vacinação seja apenas uma escolha individual, sem consequências para os demais. Quando alguém deixa de se vacinar ou não completa o esquema vacinal, pode comprometer não apenas a própria proteção, mas também a segurança de pessoas vulneráveis que dependem da imunização coletiva. A saúde pública não funciona dentro de uma bolha. As nossas decisões afetam a vida de outras pessoas. É justamente por isso que me preocupa tanto o avanço da desinformação. Durante a pandemia, vimos mentiras circularem com velocidade assustadora, enquanto profissionais da saúde precisavam gastar energia para explicar o óbvio: vacinas salvam vidas.
A ciência não é uma torcida organizada. A vacina não é uma bandeira partidária. E a proteção de uma criança não deveria depender da ideologia de seus pais ou daquilo que alguém publicou nas redes sociais.
Eu defendo o direito de questionar, de buscar informações e de exigir transparência das autoridades. Mas também defendo a responsabilidade de não transformar boatos em recomendações de saúde. Liberdade de expressão não torna uma mentira verdadeira, assim como repetir uma falsidade milhares de vezes não a transforma em evidência científica.
A omissão também tem consequências.
A própria reportagem apresenta um dado importante: segundo a Secretaria Estadual da Saúde, o Rio Grande do Sul dispõe de doses suficientes da vacina. Portanto, não estamos diante de um problema que possa ser explicado simplesmente pela falta de imunizantes.
A chefe substituta da seção de imunizações do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, Isabela Castro, aponta a desinformação e a necessidade de sensibilizar pais, responsáveis e profissionais de saúde para que as crianças completem o esquema vacinal. É preciso transformar esse alerta em ações concretas.
Quero saber o que cada município está fazendo para recuperar a cobertura vacinal. Quero saber se as equipes de saúde estão buscando as crianças com doses atrasadas, se as escolas estão participando das campanhas de conscientização, se as unidades de saúde oferecem horários acessíveis e se as famílias estão recebendo informações claras.
Não basta esperar que os pais apareçam espontaneamente nos postos. É preciso identificar as dificuldades, combater a desinformação e aproximar os serviços de saúde da população.
Também não considero aceitável que a responsabilidade seja jogada exclusivamente sobre as famílias. O poder público tem o dever de informar, organizar campanhas, garantir o acesso e acompanhar os indicadores. A população, por sua vez, precisa fazer a sua parte.
Meu chamado é simples e começa dentro de casa. Pegue a caderneta de vacinação das crianças. Confira se receberam a primeira e a segunda doses da tríplice viral. A primeira dose é indicada aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de idade. Se houver alguma dose pendente, procure a Unidade Básica de Saúde mais próxima. Se perdeu a caderneta ou não sabe como está o histórico de vacinação, procure orientação de um profissional de saúde. Adolescentes e adultos também devem verificar sua situação vacinal, seguindo as recomendações do Calendário Nacional de Vacinação para sua idade e histórico. A vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS. Não deixe para amanhã uma proteção que pode ser garantida hoje.
Aos gestores municipais, faço outro chamado: ampliem a busca ativa, promovam mutirões, aproximem as equipes de saúde das escolas e divulguem os locais e horários de vacinação. Cada criança com o esquema completo representa um avanço na proteção de toda a comunidade. Eu não quero ver o sarampo voltar a ocupar leitos hospitalares, assustar famílias e ameaçar crianças por uma falha que poderia ser evitada.Uma sociedade que tem condições de prevenir uma doença e não o faz precisa questionar suas prioridades.
A ciência já nos entregou uma ferramenta poderosa. Agora, cabe a nós utilizá-la com responsabilidade. Aos governos, cabe agir. Aos profissionais, orientar. Às famílias, proteger.
Porque, quando o assunto é a saúde das nossas crianças, prevenir não é exagero, não é ideologia e muito menos motivo para disputa política.
Prevenir é um dever coletivo.
Eu prefiro mil vezes uma sociedade que comemora uma doença evitada do que uma sociedade que aprende, tarde demais, o preço da própria negligência.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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