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São Jerônimo, RS,23/10/2026

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MARCELO NORONHA | Domingo, meu voto é pela democracia, pela dignidade e pela igualdade

Há milhares de histórias que os números não conseguem contar. Há profissionais, famílias, sonhos e anos de dedicação que não cabem nas planilhas de custos

Reprodução / IA
MARCELO NORONHA | Domingo, meu voto é pela democracia, pela dignidade e pela igualdade
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Marcelo Noronha*

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No próximo domingo, não vou às urnas apenas para escolher quem ocupará a Presidência da República. Vou exercer um direito conquistado com muita luta, sangue, suor e resistência. Vou votar carregando comigo minhas convicções, minhas preocupações com o futuro do Brasil e, principalmente, minha esperança de que possamos construir um país menos desigual, mais justo e verdadeiramente democrático.

A democracia, para mim, não se resume ao direito de votar. Ela se revela na maneira como um governo trata quem tem pouco, como protege quem vive à margem da sociedade e como reconhece aqueles que, historicamente, tiveram seus direitos negados. Afinal, de que vale uma democracia que funciona perfeitamente para alguns, mas continua sendo uma promessa distante para milhões de brasileiros?

É por isso que minhas escolhas políticas passam, necessariamente, pelos projetos sociais. Eu acredito em um Estado que não vire as costas para quem precisa de oportunidades. Acredito que combater a fome, ampliar o acesso à educação, garantir moradia, fortalecer a saúde pública e criar condições para que os jovens construam um futuro digno não são favores de governantes. São compromissos de uma sociedade que compreende o significado da palavra justiça.Também acredito que não existe democracia plena enquanto o racismo continuar determinando destinos no Brasil.

Não consigo olhar para a realidade brasileira e ignorar que a população negra ainda enfrenta barreiras que atravessam gerações. Não posso aceitar que a cor da pele continue influenciando o acesso ao emprego, à renda, à educação, à segurança e às oportunidades. Não considero razoável falar em meritocracia sem reconhecer que milhões de brasileiros começam a corrida da vida muito atrás da linha de largada.

Quando defendo políticas públicas para a população negra, não estou pedindo privilégios. Estou defendendo a correção de desigualdades históricas. Quando apoio ações afirmativas, inclusão social e oportunidades para quem sempre foi excluído, estou defendendo um país que finalmente compreenda que igualdade não significa oferecer a mesma escada a todos, mas garantir que ninguém seja condenado a permanecer no chão.

Minha visão de Brasil também passa pelo respeito às mulheres, às pessoas com deficiência, à população LGBTQIA+ e a todos aqueles que, por sua condição social, origem ou identidade, ainda precisam lutar para serem tratados com dignidade. Uma sociedade democrática não exige que sejamos iguais em nossas diferenças. Exige que sejamos iguais em direitos. É nesse ponto que minhas convicções se aproximam de um projeto político comprometido com a justiça social, a redução das desigualdades, a valorização do trabalho e a ampliação de direitos. Um projeto que compreenda que o desenvolvimento de um país não pode ser medido apenas pelo crescimento da economia, pelo desempenho da bolsa de valores ou pelos lucros de grandes empresas. Precisamos medir nosso progresso pela mesa que voltou a ter comida, pela criança que permaneceu na escola, pela família que conquistou uma casa e pelo trabalhador que passou a viver com mais dignidade. Não ignoro a importância da responsabilidade fiscal, do crescimento econômico e da geração de empregos. Mas me recuso a aceitar que essas pautas sejam utilizadas como justificativa para abandonar os mais vulneráveis. Uma economia forte precisa servir à sociedade, e não transformar a sociedade em instrumento de enriquecimento de poucos. Também não confundo democracia com a obrigação de concordar com todos. O contraditório é necessário. A imprensa livre é indispensável. As instituições precisam ser respeitadas. E quem pensa diferente de mim tem o mesmo direito de votar, defender suas ideias e participar da vida pública. Não quero uma democracia que silencie adversários. Quero uma democracia capaz de enfrentar as diferenças sem transformar o outro em inimigo.

No domingo, cada eleitor fará sua escolha. Eu respeito esse direito porque sei que a democracia só existe de verdade quando reconhecemos a liberdade de quem pensa diferente. Mas respeito não significa abrir mão das minhas convicções. Eu quero um Brasil que não tenha vergonha de investir em seus pobres, que não trate a população negra como uma estatística, que não considere os direitos humanos um obstáculo e que não enxergue a proteção social como desperdício de dinheiro público. Quero um país que entenda que a dignidade humana não pode depender do CEP, da renda familiar ou da cor da pele.

Sei que nenhum candidato possui todas as respostas e que nenhum governo está livre de erros. Por isso, meu voto não representa um cheque em branco. Representa uma escolha política, sustentada por valores, expectativas e pela cobrança permanente de resultados. E há uma razão que carrego comigo, em silêncio, quando penso no meu voto. Não consigo separar minhas convicções políticas das histórias de quem conheço, de quem dividiu comigo o ambiente de trabalho, os desafios de cada jornada e a esperança de construir uma vida digna por meio do próprio esforço.

Há milhares de histórias que os números não conseguem contar. Há profissionais, famílias, sonhos e anos de dedicação que não cabem nas planilhas de custos. Há pessoas que entregaram parte de suas vidas a um trabalho e descobriram, de uma hora para outra, como o valor humano pode desaparecer diante de uma decisão econômica. Quando a lógica do capital transforma trabalhadores em números descartáveis, alguma coisa está profundamente errada. A eficiência pode ser uma meta legítima, mas jamais deveria servir para apagar a humanidade de quem ajudou a construir resultados.

Por isso, no domingo, também levo comigo a memória daqueles que ficaram pelo caminho. Não preciso transformar essa lembrança em discurso, nem apontar nomes para saber o que ela significa. Algumas homenagens não precisam ser anunciadas. Precisam apenas ser sentidas.

Meu voto tem lado, sim. O lado da democracia, da justiça social, da inclusão, da valorização do trabalho e da defesa dos direitos humanos. O lado de quem acredita que um país só será verdadeiramente grande quando deixar de medir sua grandeza apenas pela riqueza que produz e começar a medi-la pela dignidade que oferece ao seu povo. No domingo, vou votar com a consciência de quem sabe que uma escolha individual participa da construção de um destino coletivo. Voto pensando em quem precisa de oportunidades, em quem ainda luta para ser respeitado e em quem merece saber que sua dignidade vale mais do que qualquer balanço financeiro.

Porque a democracia não pode ser apenas o direito de escolher quem governa. Precisa ser, acima de tudo, a garantia de que ninguém será esquecido por quem governa.

E é por esse Brasil que eu voto.


(*) Marcelo Noronha, jornalista


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