MARCELO NORONHA | A guerra dos sigilos e o meu saldo bancário
No próximo domingo, escolheremos quem deverá conduzir o Brasil. Não estaremos escolhendo o melhor investigador, o maior colecionador de suspeitas ou o candidato capaz de produzir a lista mais extensa de sigilos a serem abertos. Escolheremos um presitente
Marcelo Noronha*
Faltam poucos dias para o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para o próximo domingo, e parece que finalmente encontramos uma pauta capaz de unir os dois candidatos: a vontade de abrir sigilos bancários e telefônicos. O problema é que, a cada nova declaração, a lista de pessoas que deverão entrar nessa história parece crescer mais do que a fila do INSS.
Tudo começou com o desafio de Lula, que propôs a abertura de seus sigilos e dos sigilos de Flávio Bolsonaro. Flávio aceitou, mas apresentou suas condições, incluindo a ampliação do pedido para pessoas próximas a Lula, o Instituto Lula e o ex-assessor Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. A campanha petista, por sua vez, anunciou que aceita as exigências adicionais e pretende formalizar a autorização junto ao Tribunal Superior Eleitoral. A disputa pela transparência ganhou novos capítulos, e a lista de envolvidos continua crescendo. E eu fico aqui, observando tudo isso, com uma dúvida que me tira o sono: será que ainda teremos tempo de abrir tantos sigilos antes de domingo? Porque, nesse ritmo, daqui a pouco os candidatos não estarão mais discutindo propostas para governar o Brasil. Estarão disputando quem consegue apresentar a lista mais extensa de pessoas cujas contas, ligações e movimentações financeiras devem ser examinadas.
Lula pede a abertura de um conjunto de informações. Flávio responde acrescentando outras pessoas e instituições. Lula aceita ampliar o alcance. E eu já começo a imaginar o próximo capítulo dessa novela: alguém se lembra de um assessor de um assessor, que conhece um empresário que já tomou café com um parente de alguém. Pronto! Mais um nome na lista. Se continuarem assim, talvez precisemos de um anexo especial na cédula eleitoral: o eleitor escolhe o presidente e, em seguida, marca os nomes de quem gostaria de ver com o sigilo aberto.
Ironias à parte, eu considero a transparência fundamental na vida pública. Quem pretende governar o país precisa compreender que a confiança da sociedade não se conquista apenas com discursos inflamados, acusações e desafios diante das câmeras. Ela se constrói com explicações consistentes, documentos verificáveis, respeito à lei e disposição para prestar contas. Mas também considero importante separar as coisas. Autorizar a divulgação de informações não é a mesma coisa que ter todos os dados efetivamente examinados e publicados. E ter o nome incluído em uma lista não significa culpa. Suspeitas precisam ser investigadas, provas precisam ser avaliadas e ninguém deveria ser condenado pela simples proximidade com alguém investigado. O que me incomoda nessa disputa é a possibilidade de a transparência virar apenas uma arma eleitoral, acionada a poucos dias da votação, quando cada gesto é calculado para produzir manchetes, constranger o adversário e conquistar votos. Afinal, por que essa urgência aparece justamente agora? Se a transparência é tão importante, por que ela parece ganhar tanta força quando o calendário eleitoral está prestes a terminar? Será que estamos diante de um compromisso verdadeiro com a prestação de contas ou de mais uma estratégia para ocupar o noticiário até o último minuto?
O eleitor merece respostas. Merece saber o que é fato, o que está sob investigação e o que é apenas uma acusação lançada no calor da campanha. Merece, sobretudo, conhecer as propostas para o futuro do país, porque o Brasil não pode passar os próximos quatro anos administrando uma interminável guerra de acusações.
E, falando em transparência, quero aproveitar para fazer uma declaração pública. Se essa moda pegar e resolverem incluir o meu nome na lista, por favor, não riam do meu saldo bancário! Eu autorizo a abertura. Podem olhar as entradas, as saídas, as transferências e até aquele dinheiro que desaparece misteriosamente depois de pagar as contas do mês. Não tenho problema nenhum em mostrar a realidade. Só faço uma exigência: que ninguém fique com dó de mim. Eu não gosto de ser motivo da tristeza de ninguém! Aliás, se a análise for muito detalhada, talvez seja necessário abrir também um sigilo emocional, porque olhar o extrato bancário de um brasileiro comum, depois de pagar aluguel, água, luz, mercado e combustível, pode provocar uma crise de compaixão coletiva. E não quero ser responsável por uma epidemia nacional de tristeza!
Brincadeiras à parte, a minha conta bancária não guarda os segredos da República. Guarda apenas a luta cotidiana de quem trabalha, paga impostos e tenta chegar ao fim do mês com dignidade. E suspeito que milhões de brasileiros tenham extratos muito mais parecidos com o meu do que com os dos protagonistas dessa disputa. Por isso, enquanto os candidatos ampliam suas listas, eu gostaria de ver uma ampliação de outro tipo: a das propostas para melhorar a vida de quem vive de salário, de quem empreende com dificuldade, de quem espera atendimento na saúde, de quem luta por educação de qualidade e de quem já não sabe como equilibrar o orçamento doméstico. Quero transparência, sim. Quero investigação quando houver indícios, quero responsabilização quando houver provas e quero que a lei valha para todos. Mas também quero um país em que a política não se resuma a uma competição para descobrir quem tem mais gente a expor.
No próximo domingo, escolheremos quem deverá conduzir o Brasil. Não estaremos escolhendo o melhor investigador, o maior colecionador de suspeitas ou o candidato capaz de produzir a lista mais extensa de sigilos a serem abertos. Estaremos escolhendo um presidente. E, se até domingo ainda estiverem acrescentando nomes ass essa lista, deixo aqui o meu último pedido: quando chegarem ao meu extrato, tenham piedade. Não do meu dinheiro, que já está acostumado a sofrer, mas da minha reputação. Porque, se o Brasil descobrir que o meu maior segredo é terminar o mês sem saldo, temo que a abertura do meu sigilo provoque um escândalo nacional. Não por corrupção. Por falta de dinheiro mesmo!
Em tempo: eu quero o debate da Globo com checagem rigorosa dos fatos, sem privilégios, sem complacência e sem passar pano para ninguém! Se os candidatos estão tão dispostos a abrir sigilos bancários e telefônicos, quero ver a mesma disposição para abrir a caixa-preta dos próprios discursos. Cada número apresentado precisa ser conferido, cada acusação precisa ser confrontada com provas e cada mentira precisa ser apontada, independentemente de quem a conte. Não aceito que o debate se transforme em um festival de acusações, promessas milagrosas e versões convenientes da realidade, enquanto o eleitor fica responsável por descobrir sozinho quem está mentindo. A Globo tem a oportunidade e a responsabilidade de fazer mais do que colocar dois candidatos frente a frente. Precisa colocar os fatos frente a frente com as declarações dos candidatos.
Se houver tempo para discutir sigilos, nomes, contas bancárias e telefones, também haverá tempo para verificar dados públicos, confrontar contradições e desmentir informações falsas. E, se um candidato mentir, que isso seja dito com todas as letras. Sem rodeios, sem relativizações e sem dois pesos e duas medidas.
A poucos dias da eleição, o eleitor não pode ser tratado como plateia de um espetáculo político. Eu quero respeito à inteligência de quem vota. Quero jornalismo firme, checagem independente e compromisso com a verdade. Não me interessa quem ficará desconfortável com as perguntas. Interessa-me que o cidadão não seja enganado pelas respostas.
Afinal, se queremos abrir os sigilos dos candidatos, por que não abrir também os sigilos da retórica eleitoral? Que cada um responda pelo que diz, que os fatos tenham a última palavra e que ninguém saia do debate protegido pela ausência de uma checagem rigorosa.
No domingo, não votaremos em quem melhor encenar indignação ou acumular acusações. Votaremos em quem considerarmos preparado para governar o Brasil. E essa escolha precisa ser feita com informação, não com manipulação.
Chega de espetáculo. Eu quero fatos, provas e verdade. E quero isso antes de votar, não depois!

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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