MARCELO NORONHA | O Brasil que discute banheiros enquanto o mundo disputa o futuro
O mundo não está esperando o Brasil terminar suas brigas ideológicas. As grandes potências estão investindo bilhões em pesquisa, tecnologia, processamento de dados, semicondutores, energia, defesa e inteligência artificial
Marcelo Noronha*
Confesso que me preocupa profundamente o rumo do debate político brasileiro. Não porque me faltem temas para discutir, mas porque me sobra a sensação de que estamos discutindo quase tudo, menos aquilo que realmente importa. Quando olho para o cenário político nacional, pergunto a mim mesmo: onde estão os grandes projetos para o Brasil? Onde estão as propostas capazes de transformar nossa educação, fortalecer nossa indústria, impulsionar a ciência, reduzir nossas desigualdades e garantir que as próximas gerações encontrem um país melhor do que aquele que recebemos? Em vez de respostas, encontro disputas rasas. Em vez de projetos de nação, encontro frases de efeito. Em vez de um debate sobre o futuro, vejo a política sendo reduzida a polêmicas que cabem em manchetes de poucos segundos. Discutimos qual banheiro alguém deve usar, transformamos questões comportamentais em armas eleitorais e, quando falta argumento, alguém simplesmente manda o adversário “dar um Google”, como se uma provocação nas redes sociais pudesse substituir a apresentação de um projeto consistente para o país.
Não ignoro a importância dos direitos individuais, do respeito às diferenças ou das discussões sobre costumes. Uma sociedade democrática precisa enfrentar esses temas com seriedade. O que questiono é a desproporção. Não aceito que assuntos importantes para determinados grupos sejam utilizados como cortina de fumaça para esconder a ausência de respostas sobre os problemas estruturais do Brasil. Enquanto disputamos a audiência das polêmicas, quem está discutindo a nossa dependência tecnológica? Quem está apresentando um plano consistente para recuperar a capacidade industrial brasileira? Quem está pensando a longo prazo sobre a formação dos nossos jovens, a produção de conhecimento e a preparação do país para uma economia cada vez mais orientada pela inteligência artificial?
O mundo não está esperando o Brasil terminar suas brigas ideológicas. As grandes potências estão investindo bilhões em pesquisa, tecnologia, processamento de dados, semicondutores, energia, defesa e inteligência artificial. Estão disputando mercados, cadeias produtivas, conhecimento científico e influência geopolítica. Estão pensando nas próximas décadas enquanto nós, muitas vezes, parecemos presos à próxima postagem, ao próximo vídeo viral e à próxima frase capaz de incendiar as redes sociais.
E aqui começa a parte mais preocupante dessa história. O Brasil não é um país qualquer. Temos uma das maiores biodiversidades do planeta, enormes reservas de água doce, terras agricultáveis, riquezas minerais, uma matriz energética com grande potencial renovável e uma posição estratégica no cenário internacional. Temos recursos naturais que serão cada vez mais importantes em uma economia pressionada pela transição energética e pela corrida tecnológica. Mas ter riquezas não significa, necessariamente, ter poder.
O poder está em saber o que fazer com elas, em dominar a tecnologia necessária para transformá-las em desenvolvimento, em produzir conhecimento, agregar valor e garantir que os benefícios dessa riqueza permaneçam, tanto quanto possível, com o povo brasileiro. De que adianta exportarmos minerais estratégicos se não desenvolvermos capacidade tecnológica para participar das etapas mais sofisticadas de sua transformação? De que adianta celebrarmos nossa biodiversidade se não investirmos suficientemente em ciência, biotecnologia e inovação? De que adianta falarmos em soberania nacional se dependermos de tecnologias estrangeiras para processar dados, proteger sistemas estratégicos e tomar decisões fundamentais para o nosso desenvolvimento? A inteligência artificial torna essas perguntas ainda mais urgentes. Ela não é apenas uma ferramenta para escrever textos, produzir imagens ou responder perguntas. É uma tecnologia que pode transformar a indústria, a agricultura, a medicina, a defesa, a educação e a própria capacidade dos países de conhecer, administrar e proteger seus territórios. Quem domina essa tecnologia amplia sua capacidade de produzir riqueza, antecipar riscos e exercer influência. Quem depende exclusivamente de soluções desenvolvidas por outros corre o risco de entregar também parte de sua autonomia econômica e estratégica.
Isso não significa que a inteligência artificial, por si só, decidirá o destino das nossas riquezas naturais. Significa que a capacidade de desenvolver e utilizar essa tecnologia será cada vez mais importante para monitorar ecossistemas, fiscalizar atividades ilegais, aprimorar a gestão dos recursos naturais e proteger infraestruturas críticas. E é justamente por isso que precisamos discutir a soberania brasileira com muito mais profundidade. Não afirmo que toda iniciativa estrangeira esconda uma intenção de controlar o Brasil. Seria simplificar demais uma realidade complexa. Mas seria ingenuidade imaginar que as grandes potências não consideram seus próprios interesses quando disputam acesso a mercados, recursos naturais, tecnologias e influência política.
A geopolítica não funciona com base em declarações de amizade. Funciona também por interesses econômicos, capacidade tecnológica e poder de negociação. Por isso, a defesa da soberania não pode ser apenas um discurso inflamado em palanques. Precisa aparecer no orçamento público, nas universidades, nos centros de pesquisa, nas políticas industriais, na proteção ambiental e nos investimentos em tecnologia. Precisa estar presente em um projeto nacional que estabeleça onde queremos chegar e quais instrumentos utilizaremos para chegar lá.
Quero ver o Brasil discutindo como desenvolver inteligência artificial com capacidade própria, como formar pesquisadores, como ampliar o acesso à educação científica, como proteger nossos dados estratégicos e como impedir que a riqueza produzida a partir dos nossos recursos naturais seja acompanhada de uma dependência tecnológica permanente.
Quero ver candidatos explicando como pretendem financiar essas transformações, quais metas estabelecerão, quais setores priorizarão e como mediremos os resultados. Quero ouvir propostas que sobrevivam ao fim de uma campanha eleitoral, porque um projeto de nação não pode começar e terminar a cada quatro anos.
Também quero que se discuta a desigualdade. Afinal, não faz sentido defender a liderança tecnológica brasileira enquanto milhões de pessoas continuam sem acesso adequado à educação, ao saneamento, à saúde e às oportunidades necessárias para participar dessa transformação. A tecnologia precisa servir à sociedade, não aprofundar os privilégios de quem já concentra renda e poder.
O Brasil precisa escolher se pretende ser apenas fornecedor de matérias-primas e consumidor de tecnologias desenvolvidas no exterior ou se deseja construir uma posição mais autônoma, capaz de combinar riqueza natural, conhecimento científico, indústria e justiça social. Essa escolha não será feita com memes, provocações ou disputas sobre quem venceu a discussão nas redes sociais. Será feita com planejamento, investimento, competência, participação democrática e coragem política. É isso que espero de quem pretende governar o país. Não espero que concordemos em tudo. Espero que os candidatos sejam capazes de apresentar propostas, defender suas escolhas e explicar como pretendem transformar suas promessas em resultados concretos. Porque governar não é apenas administrar o presente. É preparar o futuro. E o futuro não espera que terminemos de discutir quem tem razão na próxima polêmica.
Enquanto perdemos tempo com debates que frequentemente se resumem a banheiros, provocações e frases de efeito, outros países estão construindo laboratórios, formando cientistas, desenvolvendo tecnologias e disputando os recursos que moverão a economia das próximas décadas. O meu receio é que, quando finalmente resolvermos discutir o futuro, descubramos que outros já tomaram as decisões mais importantes sobre ele.
Não quero um Brasil fechado para o mundo, desconfiado de toda cooperação internacional ou refém de um nacionalismo de discursos vazios. Quero um Brasil capaz de cooperar sem se subordinar, negociar sem se ajoelhar e compartilhar conhecimento sem abrir mão de seus interesses estratégicos. Quero um país que compreenda que a maior riqueza de uma nação não está apenas debaixo da terra, nas águas dos seus rios ou na imensidão de suas florestas. Está também na inteligência do seu povo, na capacidade de produzir conhecimento e na coragem de planejar o amanhã.
Afinal, de nada adianta vivermos sobre um território extraordinariamente rico se não tivermos competência para transformar essa riqueza em desenvolvimento, dignidade e soberania. O Brasil não precisa deixar de discutir seus conflitos sociais. Precisa parar de permitir que eles ocupem todo o espaço, enquanto os grandes desafios permanecem sem respostas.
Eu quero menos espetáculo e mais projeto. Menos provocação e mais conhecimento. Menos disputa por manchetes e mais compromisso com as próximas gerações. Porque, no fim das contas, a pergunta que deveria orientar o debate político brasileiro não é apenas quem vencerá a próxima eleição. É que país estaremos entregando aos nossos filhos quando essa eleição
terminar. E essa, convenhamos, é uma pergunta importante demais para receber como resposta um simples “dá um Google”.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






COMENTÁRIOS