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São Jerônimo, RS,02/10/2026

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MARCELO NORONHA | A democracia não está em festa

Eu quero uma democracia que não seja celebrada apenas diante das urnas, mas vivida todos os dias. Quero uma democracia que não seja apenas o direito de votar, mas também o direito de comer. O direito de morar. O direito de trabalhar. O direito de estudar.

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MARCELO NORONHA | A democracia não está em festa A democracia não está em festa
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Marcelo Noronha*

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Eu confesso que a expressão “festa da democracia” sempre me causou certo desconforto.Talvez porque eu não consiga olhar para uma eleição apenas como uma celebração. Eu vejo a urna e enxergo responsabilidade. Vejo escolhas. Vejo consequências. Vejo o futuro de milhões de pessoas sendo colocado, por alguns minutos, dentro de uma pequena máquina eletrônica.

Neste domingo, nós não estaremos apenas escolhendo governantes.

Estaremos escolhendo caminhos. Estaremos dizendo que país queremos construir, que prioridades queremos defender e, principalmente, que democracia queremos deixar para aqueles que virão depois de nós. Por isso, eu não consigo tratar este momento como uma festa. Festa é quando todos podem sorrir. Festa é quando ninguém fica do lado de fora.Festa é quando existe motivo para comemorar.

E eu ainda não consigo comemorar plenamente enquanto houver brasileiro procurando comida para colocar na mesa. Eu não consigo falar em festa enquanto existir uma família sem uma casa digna. Enquanto houver trabalhador que passa o mês inteiro trabalhando e chega ao final dele sem saber se conseguirá pagar todas as contas. Enquanto houver gente que precisa escolher entre comprar comida, pagar a luz ou comprar o remédio. Enquanto uma criança tiver seu futuro determinado pelo CEP onde nasceu. Enquanto educação, saúde, segurança, moradia e dignidade continuarem sendo promessas que reaparecem de quatro em quatro anos, como velhos conhecidos que só lembram da nossa existência quando precisam do nosso voto.

Não. Para mim, isso ainda não é uma festa. É uma luta. É uma responsabilidade. É um compromisso.

É justamente por isso que eu considero o voto uma das maiores ferramentas que o cidadão possui. Porque, diante da urna, por alguns segundos, somos todos iguais. O voto do rico vale tanto quanto o voto do pobre. O voto do empresário vale tanto quanto o voto do trabalhador. O voto de quem tem muito vale tanto quanto o voto de quem tem quase nada. Mas existe uma diferença fundamental: depois que a urna é fechada, os efeitos das nossas escolhas não desaparecem. Eles entram nas nossas casas. Entram nos hospitais.Entram nas escolas. Entram no preço dos alimentos. Entram no mercado de trabalho. Entram na vida de quem depende de políticas públicas para sobreviver. Entram, inclusive, na vida daqueles que escolheram não votar ou que disseram não acreditar mais na política.

É por isso que eu vejo o domingo com preocupação, mas também com esperança. Preocupação porque estamos diante de uma escolha que vai muito além de nomes e partidos. Como já escrevi, estamos diante de uma discussão que ultrapassou o simples debate ideológico e os projetos de governo. Estamos decidindo que democracia queremos e quais serão os limites que aceitaremos para o exercício do poder. E isso é sério demais para ser tratado como uma festa.

Eu quero uma democracia que não seja celebrada apenas diante das urnas, mas vivida todos os dias. Quero uma democracia que não seja apenas o direito de votar, mas também o direito de comer. O direito de morar. O direito de trabalhar. O direito de estudar. O direito de ser atendido quando estiver doente. O direito de envelhecer com dignidade. O direito de criar os filhos sem medo de que lhes falte o básico.

Talvez a verdadeira festa da democracia ainda esteja por acontecer. Ela acontecerá no dia em que nenhuma mãe precisar dizer ao filho que não há comida. No dia em que nenhuma família precisar improvisar um teto para chamar de lar. No dia em que nenhum trabalhador precisar aceitar a exploração porque não encontrou outra alternativa. No dia em que nascer pobre não significar nascer condenado à falta de oportunidades. No dia em que a dignidade deixar de ser promessa de campanha e passar a ser realidade cotidiana. Nesse dia, eu não precisarei de discursos, bandeiras ou slogans para saber que a democracia venceu.

Eu simplesmente olharei ao redor. E verei pessoas vivendo com dignidade.

Aí, sim, eu poderei dizer: Hoje é festa. Hoje a democracia está em festa. Porque, finalmente, ela chegou à vida de todos.


(*) Marcelo Noronha, jornalista


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