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São Jerônimo, RS,23/10/2026

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MARCELO NORONHA | O Futebol Não Nasceu nas Bets

Reprodução / IA
MARCELO NORONHA | O Futebol Não Nasceu nas Bets
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Marcelo Noronha*

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Eu confesso que fico intrigado quando vejo dirigentes de futebol tratando as bets como se fossem a última tábua de salvação de um esporte que existe muito antes de qualquer plataforma de apostas ocupar uma camisa, uma placa de publicidade ou uma transmissão de televisão.

O debate ganhou força depois que clubes da Série A divulgaram, em 17 de setembro, um manifesto defendendo a manutenção do mercado regulado de apostas e alertando que restrições poderiam comprometer receitas, contratos e investimentos no futebol brasileiro. O Grêmio aderiu ao documento. O Internacional não participou do manifesto nacional.

Eu acho essa diferença entre os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul bastante interessante. O Grêmio decidiu colocar seu nome entre os clubes que fizeram o alerta sobre os efeitos econômicos de uma eventual restrição ao mercado. O Inter, por sua vez, não aderiu ao movimento nacional, embora tenha reconhecido a necessidade de enfrentar os impactos sociais das apostas e demonstrado preocupação com eventuais efeitos sobre o financiamento do futebol.

Não estou aqui para transformar isso em mais um capítulo de Gre-Nal. Estou interessado em uma pergunta muito maior: por que o futebol brasileiro chegou ao ponto de considerar tão importante uma fonte de receita cercada de controvérsias sociais? Porque o futebol brasileiro existia antes das bets. E os problemas financeiros dos clubes também. Muito antes delas, eu já via clubes pagando salários astronômicos para jogadores que entregavam futebol mediano. Já existiam contratos longos, contratações questionáveis, dirigentes tomando decisões pouco transparentes, administrações acumulando dívidas e clubes antecipando receitas futuras para pagar despesas presentes.

Então eu não consigo olhar para essa discussão apenas pelo lado da receita. Eu quero olhar para o lado da despesa. Quero saber quanto custa manter determinados elencos, quanto se gasta com jogadores que não correspondem ao investimento e quantas decisões são tomadas pensando no patrimônio do clube ou na sobrevivência política de quem ocupa a direção.

Porque existe uma coisa que me incomoda profundamente no futebol brasileiro: muitas vezes, parece que o clube deixou de ser o objetivo e passou a ser instrumento.

Instrumento de poder. Instrumento político. Instrumento de vaidade. Instrumento de projeção pessoal. E quando isso acontece, a instituição começa a pagar uma conta que não é dela. O clube é centenário. O dirigente tem mandato. O clube tem milhões de torcedores. O dirigente tem uma cadeira.

O clube continuará existindo depois que o presidente deixar o cargo. A pergunta que eu faço é se algumas decisões tomadas hoje continuarão sendo boas para o clube quando quem as tomou já não estiver mais lá. É por isso que, antes de apontar as bets como ameaça ao futebol, eu gostaria que os dirigentes olhassem para dentro de casa.

O Grêmio, por exemplo, conhece muito bem os riscos de um contrato de patrocínio problemático. O clube rescindiu o vínculo com a Alfa Bet depois de atrasos nos pagamentos e passou meses sem patrocinador máster. Em julho, havia recebido propostas de empresas de apostas na faixa de R$ 20 milhões a R$ 25 milhões anuais, consideradas abaixo do que pretendia obter. O contrato anterior com a Alfa Bet havia sido projetado em aproximadamente R$ 50 milhões anuais. Existe aí uma ironia que eu não consigo ignorar. Quando a bet paga, ela é uma importante fonte de receita. Quando deixa de pagar, o clube precisa cobrar. E quando o mercado corre risco de sofrer restrições, os clubes alertam para os efeitos financeiros.

Enquanto isso, o Ministério da Saúde já identificou uma dimensão preocupante do problema. Segundo dados apresentados pela pasta, aproximadamente 900 mil pessoas que já apostaram apresentam jogo de risco ou problemático, enquanto cerca de 1,4 milhão preencheram critérios para transtorno do jogo. A documentação oficial relaciona o problema a consequências como perda financeira e endividamento. Eu não consigo simplesmente ignorar essas pessoas porque os clubes precisam fechar suas contas.O torcedor não pode ser tratado apenas como consumidor. O apostador não pode ser tratado apenas como fonte de receita. E o clube não pode ser tratado apenas como empresa que precisa maximizar faturamento a qualquer custo.

Existe uma dimensão social nessa discussão. E existe também uma dimensão administrativa. Eu quero saber se os clubes brasileiros estão fazendo tudo o que poderiam para ampliar suas receitas sem abrir mão da responsabilidade. Bilheteria, sócio-torcedor, produtos licenciados, formação de atletas, venda internacional de direitos, conteúdo digital, experiências nas arenas, naming rights (direito de nome), patrocínios de outros setores e, principalmente, gestão profissional.Tudo isso deveria fazer parte da conversa.

Porque o problema não está apenas em quem coloca dinheiro no futebol.Está também em quem decide como esse dinheiro será gasto. Eu já vi muito dirigente falar em paixão quando deveria falar em orçamento. Já vi muito dirigente falar em grandeza quando deveria falar em responsabilidade. Já vi muito dirigente defender contratações como se estivesse usando dinheiro próprio. E talvez esteja aí uma das grandes distorções do futebol brasileiro. Quem decide não é necessariamente quem paga a conta. Quem paga a conta é o clube. E quem paga ainda mais é o torcedor.

Eu não acredito que o maior problema financeiro do futebol brasileiro tenha começado com as bets. Os clubes já acumulavam dívidas, cometiam erros administrativos e pagavam fortunas por jogadores muito antes de existir uma bet estampada no peito. Por isso, quando vejo uma discussão sobre novas receitas, minha primeira pergunta é outra: quanto custa a incompetência administrativa? Quanto custa contratar mal? Quanto custa renovar contratos por valores incompatíveis? Quanto custa manter jogadores que não entregam o que recebem? Quanto custa uma decisão tomada para agradar um grupo político? Quanto custa transformar o clube em extensão do ego de seus dirigentes?

Essas contas também deveriam aparecer no debate.Eu quero clubes financeiramente responsáveis. Quero dirigentes que pensem como administradores de patrimônio coletivo. Quero salários compatíveis com a realidade financeira. Quero transparência, planejamento e decisões tomadas pensando no clube, e não na próxima eleição. Quero menos personalismo e mais institucionalidade. E quero, principalmente, que ninguém tente me convencer de que o futebol brasileiro começou a existir no dia em que as bets chegaram. Não começou.

O futebol brasileiro tem história, torcida, patrimônio, marcas, estádios, categorias de base, ídolos e uma capacidade gigantesca de gerar receitas. O que ele precisa descobrir é como transformar tudo isso em sustentabilidade.

O Grêmio fez sua escolha e aderiu ao manifesto. O Inter preferiu ficar fora da manifestação nacional, embora tenha reconhecido tanto os impactos sociais quanto a preocupação econômica com mudanças no setor. Eu acho que essa diferença deveria 

Servir menos para uma provocação entre gremistas e colorados e mais para uma reflexão sobre o futebol gaúcho e brasileiro. Porque, no final, a pergunta que eu gostaria de fazer aos dirigentes dos dois clubes é bastante simples:

Se as bets desaparecerem amanhã, o que sobra do modelo de gestão que vocês construíram? Eu gostaria que a resposta fosse um clube forte, organizado e capaz de caminhar com as próprias pernas. Porque o futebol não nasceu nas bets. E não deveria depender delas para saber administrar o próprio futuro.


(*) Marcelo Noronha, jornalista

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