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São Jerônimo, RS,24/08/2026

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MARCELO NORONHA | Naquela mesa está faltando ele

Meu pai era conhecido na região pelo apelido de Morcego. Para os mais próximos, era o Morceguinho. E se existe uma herança que recebi dele sem que ninguém precisasse me ensinar, essa herança foi o amor pelo futebol.

Arquivo Pessoal
MARCELO NORONHA | Naquela mesa está faltando ele
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Marcelo Noronha*

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Há datas que chegam ao calendário. Outras chegam ao coração.

O Dia dos Pais, para mim, pertence à segunda categoria.

Todos os anos, quando agosto se aproxima, alguma coisa dentro de mim desacelera. É como se o tempo, por alguns instantes, deixasse de correr para me devolver uma ausência que nunca aprendi completamente a aceitar. O Dia dos Pais não me faz apenas lembrar do meu pai. Ele me faz lembrar do pai que eu não tive tempo de conhecer.

Eu tinha apenas três anos quando ele partiu.

Três anos é pouco. É quase nada diante de uma vida inteira. É uma idade em que a memória ainda não sabe guardar rostos, vozes, gestos e abraços com a nitidez que gostaríamos. Talvez por isso eu tenha passado boa parte da vida tentando reconstruir meu pai através das lembranças dos outros.

E foi assim que ele sobreviveu em mim.

Meu pai era conhecido na região pelo apelido de Morcego. Para os mais próximos, era o Morceguinho. E se existe uma herança que recebi dele sem que ninguém precisasse me ensinar, essa herança foi o amor pelo futebol.

Gosto de imaginar que alguma coisa dos seus pés chegou até os meus.

Ele era jogador. E não apenas um jogador qualquer. Os relatos de quem o viu jogar atravessaram décadas e chegaram até mim carregados de admiração. Quando alguém me conta uma história sobre ele, quando alguém lembra de uma partida, de uma jogada, de um talento que parecia diferente dos demais, é como se, por alguns segundos, eu pudesse enxergar aquilo que a minha memória não conseguiu guardar.



Eu não lembro do meu pai jogando.

Mas ouvi tantas histórias sobre ele que, de certa maneira, aprendi a vê-lo jogar.

É uma coisa estranha essa forma que a ausência encontra para permanecer.

Talvez eu tenha passado boa parte da vida conversando silenciosamente com um homem que conheci muito mais pela saudade do que pela convivência.

E talvez seja justamente por isso que a figura dele tenha crescido tanto dentro de mim.

Não tive tempo para conhecer seus defeitos. Não tive tempo para descobrir suas imperfeições, suas manias, seus erros, suas contradições. A vida me deixou apenas a parte que o tempo conseguiu preservar: o nome, o futebol, as histórias e a saudade.

Por isso, quando penso no pai que sou, também penso no pai que não pude ter.

Eu sei que não sou um pai perfeito. Aliás, talvez a primeira honestidade de qualquer pai seja reconhecer que não existe perfeição nessa tarefa. A gente erra. A gente se atrasa. Às vezes perde a paciência. Às vezes não percebe que aquele abraço que adiamos poderia ser justamente o abraço que um filho precisava naquele instante.

Mas a ausência do meu pai me ensinou uma coisa que nenhuma escola poderia ensinar.

Presença importa.

Importa muito.

Uma conversa aparentemente banal pode se transformar, anos depois, em uma lembrança preciosa. Um jogo de futebol pode virar uma memória para toda a vida. Uma bronca pode ser lembrada com carinho. Um abraço pode se transformar em patrimônio afetivo.

Quando a gente perde alguém cedo demais, aprende dolorosamente que o tempo não devolve aquilo que deixamos para depois.

Talvez seja por isso que eu tente estar presente.

Não porque eu saiba exatamente como ser pai, mas porque sei exatamente o que significa não ter um pai por perto.

E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Hoje, quando olho para a trajetória do velho Morceguinho, sinto orgulho.

Orgulho do jogador que tantos ainda lembram. Orgulho do homem cujo nome resistiu ao tempo. Orgulho de saber que, mesmo tendo vivido tão pouco, ele deixou uma marca suficientemente forte para que pessoas continuassem falando dele décadas depois.

Isso me consola.

Porque existem pessoas que vivem muitos anos e desaparecem rapidamente da memória.

Meu pai viveu pouco.

Mas permaneceu.

Permaneceu no futebol da nossa região. Permaneceu nas histórias de quem o conheceu. Permaneceu no apelido que ainda desperta lembranças. Permaneceu no orgulho de um filho que teve apenas três anos para chamá-lo de pai, mas uma vida inteira para sentir sua falta.

E talvez essa seja a maneira que encontrei de mantê-lo vivo.

Contar sobre ele.

Falar do Morcego.

Falar do Morceguinho.

Relembrar o jogador.

Relembrar o homem.

Relembrar o pai.

Neste Dia dos Pais, enquanto tantos terão a alegria de abraçar seus pais, eu abraço a memória do meu.

Não posso mais ouvir sua voz. Não posso pedir seus conselhos. Não posso assistir a um jogo ao seu lado. Não posso apresentar a ele os caminhos que percorri, as escolhas que fiz, as pessoas que amei, os filhos que tive.

Mas posso olhar para trás e dizer que ele continua fazendo parte da minha história.

Talvez de uma forma diferente.

Talvez de uma forma silenciosa.

Mas continua.

E, quando a saudade aperta, eu volto para aquela música que parece traduzir aquilo que carrego há tantos anos. Nelson Cavaquinho escreveu aquilo que, para mim, não é apenas uma canção. É quase uma fotografia da ausência.

“Naquela mesa está faltando ele,

e a saudade dele está doendo em mim.”

Está faltando ele.

Sempre estará.

Porque algumas ausências não passam. A gente apenas aprende a carregá-las.

E eu carrego a minha com orgulho.

Carrego o nome.

Carrego as histórias.

Carrego o futebol.

Carrego a saudade.

E carrego, sobretudo, a esperança de que, onde quer que esteja, o velho Morceguinho possa olhar para mim e reconhecer no homem que me tornei um pouco daquele menino de três anos que um dia ficou sem o pai, mas que nunca deixou de procurá-lo nas lembranças dos outros.

Feliz Dia dos Pais, meu velho.

Naquela mesa, ainda está faltando você.

E a saudade ainda dói em mim.



(*)Marcelo Noronha, jornalista


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