MARCELO NORONHA | Quando o rio fala, talvez seja hora de perguntar ao pescador
Enquanto especialistas discutem algoritmos, quem vive às margens segue repetindo que o rio está diferente. O conhecimento popular continua sendo tratado como curiosidade, quando deveria ser tratado como patrimônio.
Enquanto especialistas discutem algoritmos, quem vive às margens segue repetindo que o rio está diferente. O conhecimento popular continua sendo tratado como curiosidade, quando deveria ser tratado como patrimônio. Marcelo Noronha*
Há uma confiança quase religiosa na tecnologia. Satélites, sensores, modelos matemáticos, inteligência artificial, painéis coloridos e mapas digitais prometem antecipar o comportamento dos rios com precisão científica. Ainda assim, quando chega a hora decisiva, os alarmes falham, as cotas surpreendem e quem mora às margens do rio volta a perguntar: quem conhece, de fato, estas águas?
Talvez esteja faltando uma atualização simples nos sistemas de alerta. Não uma nova linha de código, mas um novo hábito. Antes de apertar o botão que dispara uma previsão, perguntem ao pescador.
Sim, ao pescador.
Ele sabe quando o rio muda de humor pelo vento. Reconhece a corrente pela cor da água. Percebe o perigo antes que apareça em qualquer gráfico. Não porque tenha um laboratório à disposição, mas porque fez da margem do rio a sua sala de aula durante toda a vida.
O pescador, aqui, representa muito mais do que um profissional. Representa a população ribeirinha, que há décadas convive com enchentes, estiagens e mudanças no comportamento dos rios. É gente que raramente participa das reuniões técnicas, mas quase sempre paga a conta dos erros técnicos.
Enquanto especialistas discutem algoritmos, quem vive às margens segue repetindo que o rio está diferente. Enquanto autoridades apresentam projeções, moradores observam sinais que nenhum satélite consegue captar. O conhecimento popular continua sendo tratado como curiosidade, quando deveria ser tratado como patrimônio.
É curioso que, em pleno século XXI, sejamos capazes de monitorar tempestades do espaço, mas ainda tenhamos dificuldade para ouvir quem mora na beira do rio. Talvez o maior defeito dos sistemas de alerta não esteja no software. Talvez esteja na arrogância de acreditar que dados substituem pessoas.
Se a tragédia climática nos ensinou alguma coisa, é que ciência e experiência não são adversárias. São aliadas. A tecnologia precisa caminhar ao lado de quem conhece o território, não acima dele.
Por isso, fica a sugestão aos programadores dos sistemas de alerta: incluam uma nova variável. Antes de finalizar o relatório, antes de divulgar a próxima cota, antes de garantir que está tudo sob controle, façam uma pergunta simples.
Perguntem ao pescador.
Pode ser que ele não saiba explicar em linguagem técnica. Mas talvez saiba exatamente aquilo que os computadores ainda insistem em não enxergar.
E, no fundo, quando digo "perguntem ao pescador", estou dizendo outra coisa: prestem atenção em nós. Prestem atenção nas comunidades ribeirinhas. Prestem atenção em quem conhece o rio porque aprendeu com ele, e não apenas sobre ele.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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