EUA cancelam evento militar com Brasil e acendem alerta na Defesa
Conferência espacial que seria realizada em Brasília foi suspensa por decisão de Washington
Ministério da Defesa A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos durante o governo de Donald Trump começa a afetar diretamente a cooperação militar entre os dois países. Segundo informações da Folha de S.Paulo, o governo americano cancelou unilateralmente a Conferência Espacial das Américas, que estava marcada para ocorrer em julho em Brasília com apoio da Força Aérea Brasileira (FAB). O motivo do cancelamento não foi oficialmente divulgado, mas autoridades brasileiras interpretam a decisão como mais um reflexo do desgaste nas relações bilaterais.
Além do cancelamento do evento, os EUA devem se ausentar da Operação Formosa, maior exercício militar da Marinha brasileira, previsto para as próximas semanas em Goiás. Desde 2023, os fuzileiros navais americanos participavam da atividade com envio de tropas – no ano passado, 56 militares dos EUA estiveram presentes. Neste ano, no entanto, não houve resposta ao convite brasileiro, aumentando o alerta no Ministério da Defesa.
Cancelamento de conferência espacial preocupa FAB
A Conferência Espacial das Américas, prevista para acontecer de 29 a 31 de julho em Brasília, teria sido a quarta edição do evento promovido pelo Comando Sul dos EUA (Southcom), com foco em cooperação espacial nas áreas militar, econômica, científica e de telecomunicações. Em 2024, a edição foi realizada em Miami com participação de dez países.
A FAB confirmou que foi informada da decisão dos EUA no dia 23 de julho. Já o Comando Sul americano não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Tensão política contamina relação militar
O cancelamento é visto como parte do afastamento diplomático causado pelas críticas do presidente Donald Trump ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal (STF). O republicano acusou o Brasil de promover uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro (PL), em referência às investigações sobre tentativa de golpe. Trump também impôs sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, cassou vistos de autoridades brasileiras e adotou sobretaxas de 50% sobre produtos nacionais.
Fontes no Ministério da Defesa disseram que há preocupação com o impacto dessa tensão na cooperação estratégica entre os dois países, especialmente em setores sensíveis como defesa cibernética e inteligência.
Participação dos EUA na Operação Formosa está indefinida
A ausência americana também deve se estender à Operação Formosa, principal exercício da Marinha no país, que mobiliza cerca de 2.000 militares, 100 viaturas e oito helicópteros. Segundo apuração da Folha, os EUA ainda não confirmaram presença, o que é incomum após uma década de participação, inicialmente como observadores e, mais recentemente, com envio de tropas.
Além dos EUA, a China também ficará de fora da edição deste ano, mesmo após ter enviado militares em 2024 — fato inédito na história da operação.
Cresce aproximação com a China
Dentro do governo Lula, há resistência à participação americana nos exercícios, especialmente diante das sanções. Ao mesmo tempo, cresce a aproximação com a China. O Brasil enviará pela primeira vez um oficial-general para atuar como adido militar em Pequim, reforçando os laços bilaterais no setor de defesa.
Fontes da Marinha veem o estreitamento com os chineses como um dos fatores que teriam contribuído para o esfriamento da cooperação com os EUA.
Cooperação não está rompida, mas em alerta
Apesar dos sinais de afastamento, não houve ruptura oficial na parceria militar Brasil-EUA. Como exemplo, autoridades lembram que os EUA enviaram aviões cargueiros para o Exercício Conjunto Tápio, realizado no fim de julho em Campo Grande (MS), focado em guerra irregular, missões de paz e guerra eletrônica.
Além disso, segue mantida — até o momento — a Operação Core 2025, prevista para novembro, com foco em padronização de procedimentos militares entre as forças brasileiras e americanas.
Mal-estar em visita recente do Comando Sul
A deterioração nas relações ficou evidente ainda em abril, durante a visita do chefe do Southcom, almirante Alvin Holsey, ao Brasil. A delegação americana pediu uma visita específica a uma base do Exército em Rio Branco (AC), o que foi recebido com estranheza por autoridades brasileiras. A tentativa de redirecionar a visita para Manaus não foi aceita pelos americanos, o que resultou em restrição das agendas à capital federal.





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