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São Jerônimo, RS,05/10/2026

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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Pavão, 90 anos, memória viva

O cônsul gremista era colorado

Arquivo Pessoal
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Pavão, 90 anos, memória viva Pavão, 90 anos, memória viva

João Adolfo Guerreiro

Gremista-vascaíno que, curiosamente, tem o apelido de um zagueiro do Flamengo. Ativo e lúcido, com ótima memória e gentil, conversei com Naelton "Pavão" Tassinari na tarde da sexta-feira passada, junto com os amigos Alberto André e Guto (seu sobrinho).

Naelton nasceu em 4 de agosto de 1936, está com 90 anos (na ficha do Estrela o ano está errado, 1937), é viúvo e desde 1958 mora em Charqueadas, vindo de Arroio dos Ratos, sua cidade natal, onde iniciou sua carreira como jogador de futebol amador atuando como quarto-zagueiro pelos três clubes da cidade: Guarani, Estrela e Brasil. Começou no Guarani em 1954, ficando até 1958. Em 1959 atuou pelo Estrela e no ano seguinte defendeu o Brasil, equipe pela qual seria homenageado nos 80 e 100 anos do clube.

Grande parte de suas boas histórias se deram no período em que foi cônsul do Grêmio em Charqueadas, de 1977 à 1983, inclusive tem afixada na parede da sala uma camisa do Grêmio da Libertadores de 1983, autografada por Tarciso Flecha-Negra, ponta-direita que é o jogador com mais jogos pelo Tricolor. Uma delas foi quando quase brigou com João Severiano, ex-jogador e então treinador da base, por este não deixar um jogador que Naelton levou pra lá treinar. Disse: "Só não vou brigar contigo por causa das bolsas de estudo que tu enviava pros garotos lá em Charqueadas". João escutou e disse, sorrindo: "Ah, então era pra ti que eu enviava as bolsas". Se abraçaram, fazendo as pazes.

Outra vez, neste mesmo período, Pavão caminhava pela avenida Bento Gonçalves quando viu um automóvel Miúra familiar. Era Éder Aleixo, ponta-esquerda gremista, que estava em Charqueadas atrás da namorada, filha de um caixeiro-viajante. Éder o reconheceu e parou o carro, perguntando onde era sua casa, se a conhecia. Naelton lhe disse que o pai da garota já tinha lhe contado sobre o namoro, inclusive, indicando-lhe a residência.

Pavão indicou dois craques para o Grêmio: Mazaroppi e Cassiá, diretamente ao dirigente Rudi Petry, para o qual também falou do latetal-esquerdo Cláudio Duarte, morador da Colônia,  mas este foi para o Internacional. Ele e o cônsul de Barra do Ribeiro, quando da final do Brasileiro de 1981contra o São Paulo no Morumbi, foram sorteados para acompanhar a delegação no avião, mas como Naelton tem medo de voar, abriu mão e pediu apenas uma camisa do Grêmio. 

Mas o melhor causo foi de quando Naelton virou cônsul. Certa feita, disse a um dirigente no Olímpico que o consulado gremista em Charqueadas era tão desorganizado que o cônsul era colorado. Um representante da direção veio à cidade e perguntou se Naelton poderia provar o que dissera. Naelton respondeu: "Ora, posso fazer melhor, posso te mostrar agora mesmo". Levou o representante até a casa do senhor Luis Cairuga, o cônsul, e este confirmou ser torcedor do Internacional. Assim, mesmo sem ter intenção, Pavão virou o novo cônsul.

Um dos grandes amigos de Pavão era o conterrâneo e também zagueiro Gunga, que saiu de Ratos para jogar, no final dos 1960 e 1970, no Inter, Curitiba, Fluminense  e Laguna do México. Naelton sabia que Gunga era gremista e fã de Airton Pavilhão. O amigo lhe enviava camisas dos times pelos quais passava. Gunga está na foto abaixo, ao lado de Alcindo Bugre, no México, de calças e óculos escuros. A foto tem uma dedicatória do Bugre para Pavão. Uma curiosidade relatada por Naelton era que Gunga, muito bom de briga, quis bater em Alcindo durante um tumulto generalizado num GreNal, antes de virarem amigos. Gunga faleceu há um ano.

Durante a nossa conversa, chegou o atual cônsul gremista de Charqueadas José Luiz na residência, viu eu de camiseta do Fluminense e Pavão com boné do Vasco e disse: "Ah, por isso não tão indo nos jogos do Grêmio vocês dois". A casa de Naelton "Pavão " Tassinari é recheada de fotos e lembranças do Grêmio, do Vasco, dos times de Arroio dos Ratos em que jogou e de souvenirs que Gunga lhe enviava, além das camisas, lembrancinhas como um chapeuzinho mexicano.

Foi um prazer ser recebido por Pavão em sua morada e ouvir essas e outras boas histórias.

Uma boa semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.


Guarani, 1956: em pé, da esquerda para a direita, Rabote, Delto (goleiro), Naelton, Brandão, César e João Brandão; agachados, Caio Léo, Bandeira, Pilotinho, desconhecido e Samuel Gelb.



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