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São Jerônimo, RS,29/09/2026

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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Jantar Secreto: uma avaliação

Este texto contém spoilers do livro de Montes

Arquivo Pessoal
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Jantar Secreto: uma avaliação Este texto contém spoilers do livro de Montes

João Adolfo Guerreiro

ADVIRTO: Esta avaliação está repleta de spoilers e é uma opinião pessoal destinada a quem já leu o livro de Raphael Montes.

O autor é um dos fenômenos da literatura brasileira recente, junto com Carla Madeira. Ela vendeu um milhão de exemplares de suas obras e ele a metade disso, sendo que as editoras de ambos já lançam seus livros recentes com tiragens iniciais de - uau syl! - 100 mil exemplares, respectivamente Quando (Record, 2026) e A estranha na cama (Cia das Letras, 2026). Aos 61 e 36 anos, são os autores mais vendidos de suas editoras. Já tive oportunidade de ler ambos pelo Clube do Livro de Charqueadas, suas obras mais famosas: Tudo é Rio (2014, Quixote) e o objeto deste texto, Jantar Secreto (2016, Cia das Letras).

O livro de Montes não tem nada a ver com o de Madeira, além do sucesso editorial: um, suspense; outro, romance. Todavia, ambos invistem no choque. Ele também não é original na temática e nem na ousadia chocante da abordagem, eis que remete diretamente a obras como, por exemplo, Noite na Taverna (1855), de Álvares de Azevedo. Em comum com este último - igualmente já lido e debatido pelo Clube do Livro - guarda também o fato de ser um texto escrito por um jovem escritor: 20 anos, Azevedo; 26, Montes. Ambos, porém, são bem escritos e possuem uma linguagem conectada com a do seu tempo.

Assim, situando literariamente Jantar Secreto no passado e no presente, passemos à avaliação. Pressuponho, reforço, leitores que já conheçam o livro.

O texto obviamente foi escrito para chocar ao ter por temática o canibalismo, e o faz com requintes de, digamos, sadismo. Os capítulos que se passam no matadouro e no jantar final são extremos, cruéis e brutalmente violentos, certamente impactantes e indigestos para os espíritos sensíveis e empáticos. As quatro personagens principais, os amigos Dante, Hugo, Miguel e Leitão são amorais, desprezíveis e repugnantes, assim como os secundários, Cora e Umberto. Ninguém escapa: nenhum presta! A questão pertinente, pra mim, é: qual foi o objetivo do autor com a construção chocante?

Em primeiro lugar, como se trata de uma obra escrita por um jovem iniciante de 26 anos, a intenção deste pode ter sido apenas escrever um texto legal e impactante, objetivo, reconheço, plenamente atingido: Jantar Secreto é muito bom, pra quem gosta desse tipo de literatura, o que não é o meu caso, e Montes é mui talentoso. Em segundo lugar, por outro lado, o texto pode ser uma metáfora exagerada, caricata e sanguinolenta sobre o pensamento e a prática de matiz totalitária - ou "fascista", com prefere o senso comum em voga - que grassa em setores sociais de nosso país e que, em 2016, estava já em gestação no ovo da serpente. Tal percepção seria um grande mérito para Raphael Montes.  Não por acaso, talvez - como observou o professor Roberto no Clube do Livro - os quatro escrotinhos são pessoas de classe média baixa oriundos do Paraná, tentando a sorte no Rio de Janeiro.

Conceitos básicos de Hannah Arendt como o da Banalidade do Mal podem ser intuídos como implícitos no decorrer das páginas, quando pessoas absolutamente normais e educadas são capazes das piores atrocidades ao desumanizarem o outro, desprovendo-se de qualquer racionalidade humanista: é o império dos sentidos e instintos de sobrevivência, não importando o custo pra o desumanizado. Em Eichmann em Jerusalém (1961), o burocrata nazista analisado por Arendt surge como alguém absolutamente normal e comum, mas totalmente irreflexivo acerca de sua ação e que alegou fazer apenas o seu trabalho de forma eficiente em prol de seu país durante a guerra, ao criar um sistema funcional de seleção dos judeus que iriam para os campos de concentração: "Nunca matei ninguém" - disse, em sua defesa. Dante e Miguel, em Jantar Secreto, também não. Entenderam a lógica desse tipo de pensamento?

Não sei se essa segunda linha de avaliação foi intencional no autor - não investiguei isso. Todavia, vimos esse tipo de coisa ocorrer no Brasil durante a pandemia, quando o supremo mandatário do país debochou das pessoas entubadas e com falta de ar em Manaus. Se Montes atirou no que viu e acertou no que não viu, ignoro, mas, seja como for, a obra tem esse mérito antecipatório de nos mostrar o recrudescimento do "proto-fascismo" então latente na sociedade brasileira.

Como não poderia deixar de ser, eis que comum à prática social desse tipo de ideologia totalitária, os quatro ignóbeis amigos foram comendo os outros e também a si mesmos, como mostram os destinos de Miguel, Hugo e Dante, o infame narrador do livro. O fim, meio boboca - talvez o único ponto fraco da narrativa quase perfeita de Montes - nos mostra que Leitão manipulava os outros. Justamente ele, o mais repugnante dos quatro amigos, que já no início do livro nos é apresentado como alguém que faturava uma grana vendendo remédios falsos de câncer para idosos, o que os outros amigos que moravam na mesma casa sabiam e aceitavam, naturalizado o comportamento. Aliás, a naturalização de comportamentos atrozes contra o outro desumanizado faz parte também do cerne cognitivo das ideologias totalitárias.

Eis minha avaliação de Jantar Secreto, de Raphael Montes. Uma boa história, bem contada e que, espero, seus leitores saquem a metáfora implícita, não curtindo o livro apenas por ser uma trama legal e muito tri, pois, assim sendo, passariam a adotar a imoralidade apresentada em vez de repudiá-la criticamente.




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