João Adolfo Guerreiro
JOÃO GUERREIRO | Gica do Guarani, Zico do Flamengo
‘Acho que já devo ter feito mais de mil gols em todo esse tempo’
Gica do Guarani, Zico do Flamengo A relação que seus admiradores dos 1960/70 fazem é essa mesmo do título acima. Hoje ele tem 81 anos. Vamos à crônica.
Buenas, seguindo o caminho iniciado no texto de ontem, saímos do campo do Guarani de Arroio dos Ratos direto para a casa do grande craque de sua história, Sérgio Keenan, o famoso Gica. Eu ainda não havia tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
- Gica, Gica - chamaram Beto e Guto lá na frente. Demorou um pouco e chegou o Gica. Ainda tem porte de atleta, esguio, 1.71m, mesma altura do Juarez Tanque, centroavante do Grêmio dos 1950/60. Calmo, quase tímido - ou seria desconfiado?
Parecia ou estar não reconhecendo o Beto e o Guto, ou se interrogar sobre quem seria esse cara (eu) com eles ou mesmo estar sendo interrompido por visitas inesperadas. O Beto me apresentou:
-Esse é o João, meu amigo. É jornalista, escreve pro jornal de Notícias.
Ele me olhou como se eu fosse o ET de Varginha ou coisa parecida, ou se pensasse: "Esse daí, jornalista?". Apressei-me a corrigir:
- Sou cronista, na verdade, não jornalista - disse, sem explicar.
Sei lá se ele estava interessado em saber a diferença, né?
Beto e Guto pareciam dois guris à beira do gramado vendo Gica estufar redes no passado. Rendeu-se à tietagem, convidando-nos para entrar. Como previra Madrugada, estava assistindo Coritiba x Inter, já no segundo tempo, 1x0 pros paranaenses. Um senhor reservado e atencioso. Ouviu o Beto falar pra mim:
- Era canhoto, os goleiros tinham medo do chute dele, de tão forte.
- Eu sou ambidestro - corrigiu.
- Todo mundo ia no estádio só pra ver o Gica jogar - ressaltou o Beto, arrematando com entusiasmo e um brilho no olhar: - Era o Zico no Flamengo e o Gica no Guarani.
- O senhor era camisa 10? - perguntei.
- Não, era centroavante, 9.
Que nem o Tanque. Daí o Guto entrou na conversa:
- Uma vez Gica disse que ia fazer três gols num jogo. Fez quatro!
Beto endossou:
- Fazia gol pra caramba (não foi bem essa a palavra que ele usou). Em todo o jogo Gica marcava uns, era goleador.
- Durante todo esse tempo que joguei, acho que já fiz mais de mil gols - conjecturou Gica.
Nao duvidei, pois Beto e Guto concordaram com a cabeça. (O Inter empatou, depois de um batida de cabeça daquelas da zaga do Curitiba)
Realmente, dias atrás postei umas fotos suas no Facebook e uma pá de gente de Ratos incensou o goleador do Guarani e afirmou sua qualidade como craque e condição de ídolo. Sua carreira regular e consecutiva no profissional, semiprofissional e amador foi longa, começou nos anos 1960, aos 15 anos, e atuou por mais de vinte, sendo que, na verdade, nunca parou de jogar, disse que ainda bate uma bolinha. Coloco aí abaixo aí a mesma foto do texto de ontem, da sede do Guarani, de março de 2015, com ele - é o segundo agachado, à direita, com o menino à frente.

Conversa vai e vem, falei que era da Colônia, em Charqueadas. Falei do Cláudio Duarte, do Inter, que era de lá. Perguntei de ele conheceu o grande Elite, baita time de futsal que existiu lá, e o Gica disse que sim, inclusive que jogou com o Verta. Bah, daí a coisa mudou de figura, pois o Everton "Verta" Calbar é meu ídolo. Cracasso! Vi jogar já veterano, mas que bola rolava. Aliás, ainda rola, tem 77, escrevi sobre isso: Verta e os veteranos bons de bola. Voltando ao Gica, informou que atuaram pelo Náutico de Rio Pardo, entre o final dos 60 e início dos 70. Na foto abaixo, Verta é o primeiro agachado, à esquerda, e Gica o terceiro. Estão nomeados com Luiz Everton e Serginho.

Mesmo sendo o grande nome do Guarani, Gica também passou por outros times, além do Náutico (pela segunda divisão do Gauchão), como Operário e Jeromina de Charqueadas (pela Taça Governador do Estado), Bola 7 e Pongaí (futsal), Butiá FC, Guaíba FC e os rivais citadinos do auri-rubro ratense, Brasil e Estrela - sobre esses escreverei amanhã aqui no Portal. Abaixo o grande Gica nos seus tempos regulares, no Guarani. É o do meio, entre os nove agachados.

Se encontra muita foto, recorte de jornal e informação sobre a carreira do Gica no grupo do Facebook Arroio dos Ratos Ontem, Hoje e Sempre, é só clicar no link de pesquisa do grupo e escrever Gica que vem muita coisa legal sobre esse craque, que tive o prazer de conhecer pessoalmente este mês.
Na volta fiquei refletindo sobre essa ida à Ratos e o Gica. Como o Juarez Tanque, que não conheci pessoalmente, também não vi o Gica jogar e senti uma saudade do que não experenciei, contagiado pelo brilho dos olhos do Beto e do Guto na presença do craque que encantou suas vidas. Queria muito tê-los assistido em campo, bah. Quanto coisa boa a gente não viu neste mundo, mas fica sabendo pelos outros, né?
Por outro lado, pensei também no filme do Zico, que assisti no cinema recentemente, e sobre a frase do Beto: "Gica do Guarani, Zico do Flamengo". Ela traduz algo básico sobre a paixão pelo futebol, dos nossos heróis que muitos desconhecem, como o Gica e o Verta: ídolo é ídolo, não importa a dimensão pública, mas sim o encantamento provocado pelo talento visto dentro de campo. E lembrei da canção do Jorge Ben: "Posso não ser um grande líder Mas assim mesmo lá em casa todos os meus amigos Meus camaradinhas me respeitam Essa é a razão da simpatia Do poder do algo mais e da alegria". Isso vale tanto pro futebol quanto pra vida, sabe tudo o Jorge.



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