João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Pra ler Verissimo pai
Porto Alegre, o homem e o escritor
Pra ler Verissimo pai João Adolfo Guerreiro
Em dezembro passado todos nós, gaúchos e brasileiros apreciadores da boa literatura pátria, sopramos cento e vinte velinhas para o nascimento de nosso maior escritor, Erico Verissimo. A propósito de tal, ouso aqui indicar, em tão vasta e exponencial bibliografia, dois livros para os neófitos adentrarem no mundo literário de Verissimo pai: Caminhos Cruzados, romance de 1935; e Solo de Clarineta, autobiografia de 1973/76, nesta ordem.
Caminhos Cruzados não é o primeiro livro de Erico, antecederam-lhe Fantoches (1932), Clarissa (1933) e Música ao Longe (1935). Então por que indico Caminhos Cruzados em primeiro lugar? Por N motivos: primeiro, porque li todos; segundo, porque Caminhos fala da Porto Alegre do início dos anos 1930 e ficou situado no que se denominou no Brasil de Romance de 30, escola literária social da segunda fase do Modernismo (1930- 1945), uma literatura tida como neorrealista e regionalista, sendo que o romance de Verissimo foi o que mostrou a estratificação social gaúcha para o restante do país; terceiro, porque o livro é ótimo e estruturalmente inovador, um recorte de cinco dias na vida das personagens em interação. Logo, é uma entrada e tanto na obra do autor em seus primeiros anos, no que julgo ser o seu melhor.
Buenas, tchê, lido Caminhos Cruzados, indico que se vá então para o epílogo do romancista, Solo de Clarineta. São dois volumes: Tomo I (1973) e Tomo II (1976), o segundo inacabado devido à morte de Erico em 1975. Lendo-os, terão a dimensão do homem e do escritor, de como o primeiro viveu e pensava a partir de suas experiências e da representatividade do segundo. No primeiro volume, o mais interessante e gostoso de ler, no meu ponto de vista, está o homem, desde a infância em Cruz Alta até Porto Alegre e o mundo: Europa e EUA - onde morou e trabalhou. No Tomo II vemos o romancista consagrado gozando de enorme prestígio na Europa, em suas viagens turístico-literárias, bancadas por seus editores d'além mar.
Se o Tomo I me deu prazer e saciou a curiosidade, o II me deixou impressionado, realmente de queixo caído ante tamanho prestígio de crítica e público, erudito e popular, de Erico Verissimo na Europa, principalmente em Portugal. O Tomo II aborda ainda Espanha e Holanda, mas, tomando por base o plano original, Itália, Alemanha, França, Áustria, Tchecoslováquia, Londres, Suíça e Israel ficaram de fora, infelizmente inconclusas. Pena perdermos eternamente a apurada e aguda percepção do autor em sua passagem por esses países.
Feito, afinal, esse caminho literário que vai do jovem ao velho Verissimo pai, estará o iniciante apto e cônscio para pérolas como a trilogia O Tempo e o Vento, Olhai os Lírios do Campo, Incidente em Antares, Um Certo Capitão Rodrigo e outros.
É a minha dica para quem ainda não cavalgou pelos pagos de Verissimo, mas que pretende fazê-lo .



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