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São Jerônimo, RS,23/03/2026

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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | O Júlio morreu

Era veterinário. Um vencedor. Amigo.

Arquivo Pessoal
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | O Júlio morreu Conversávamos bastante, tomando Coca Zero, sobre política, futebol, religião (principalmente), Charqueadas, General Câmara e a juventude atual e suas más perspectivas trabalhistas e previdenciárias

João Adolfo Guerreiro

A notícia me pegou desprevenido domingo de manhã, dada pelo WhatsApp da minha irmã:

- Tu viu que o Julio veterinário morreu?

- Como assim? Tá de brincadeira?

Quando alguém que tu conhece há tempos morre assim, do nada, de supetão, cinquentão, dá um baque, ficamos atordoados.

- Mas eu vi ele semana passada, me deu uma carona pra cafeteria. Tava bem. 

Sim, e aquela acabou sendo a última conversa, o último aperto de mão, a despedida.

Mês passado fiz um churras pra ele aqui em casa. Combinamos horário, mandei pro WhatsApp dele a foto abaixo escrevendo que a maminha já tava no fogo e que era pra vir logo. Bah, há uns vinte anos cuidava dos meus bichos, gatos e cachorros. Brincava que o carro dele era um terço meu, de tanta grana que já lhe pagara a cada mês. Ele ria. Já atendia a terceira geração dos Guerreiro, pois cuidava dos bichos da minha filha e da neta. Tratou meu cachorro, o Botafogo, que viveu 17 anos, desde filhote. Assim, num Natal, lhe dei uma camisa do Botafogo. Gostava de futebol, era colorado.

Conversávamos bastante, tomando Coca Zero, sobre política, futebol, religião (principalmente), Charqueadas, General Câmara e a juventude atual e suas más perspectivas trabalhistas e previdenciárias. Quem se aposentará no futuro? Ótimos bate papos, edificantes. Convidou-me pra ir na igreja dele e aceitei, mas as datas não fechavam. Agora estão definitivamente fechadas.

Logo que soube da notícia fui até sua casa, fica perto da minha, na Beira Rio. Não havia ninguém, tudo fechado. Uma cliente estava lá na frente, pelo mesmo motivo que eu.

- Vão enterrar ele amanhã - ela disse.

- Não foi agora pouco, onze horas?

- Não, amanhã, dia 23, tá no aviso da funerária.

- Mas hoje não é 23?

- Não, hoje é 22.

Estava tão chocado que nem me dera conta da data. Ela continuou:

- Perdi um irmão, faz duas semanas, o Júlio foi no velório. Disse pra ele que a gente tava ficando velho, que a gente tinha de se cuidar. Ele respondeu que tava bem, que não sentia nada. Tu vê como é, né?

- É.

- Acho que ele devia tá visitando a terra dele. Deve ter morrido lá.

- É. Deve ter sido.

O Júlio vinha me dizendo que tava pensando em começar a diminuir o ritmo de trabalho, pois já ia fazer sessenta, tinha casa na praia, uma boa economia, investimentos, era um vencedor. Já me via visitando ele na praia, tomando Coca Zero, batendo papo. O Júlio pretendia se aposentar, posteriormente. Tinha planos. Bons planos. Não deu. Que merda.

Hoje, logo mais, irei no seu enterro. Decidi que qualquer dia desses vou num culto da igreja dele lá em Porto Alegre, dedicarei-lhe um Pai Nosso, coisa assim, na hora que chegar vejo o que faço. É o que dá pra fazer por ele, agora.

Fica com Deus, Júlio. Sentirei tua falta, cara.





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