João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Ponto de vista
Oi, Paulinho
João Adolfo Guerreiro
Saiu da lancheira e subiu a 1º de Maio, pra ir no Parcão. Lá pelo Consulado do Grêmio, olhou pra o outro lado da rua e viu dona Sônia, vizinha lá dos tempos da Cohab. Há anos não a enxergava.
Pudera, ela morrera há uns vinte anos! Não podia ser ela, então, mas era muito parecida. Podia jurar que era dona Sônia. Até o sorriso era igual.
- Oi, Paulinho.
Era ela! O cumprimentou. Como podia ser isso? Ficou perturbado com a "aparição ". Era engano, não era ela, não podia.
Continuou um pouco mais e viu o Esponja. Passou de carro e também disse "Oi, Paulinho". Desta vez ficou assustado de verdade. Outra aparição. O Esponja morreu do coração, no hospital, durante uma cirurgia. Será que virara médium? Enxergava espíritos agora? Melhor voltar pra casa. Pelo caminho enxerrgou seu colega Nestor. Esteve no seu velório ano passado! Fez que não o viu e apressou o passo.
Abriu o portão, entrou e correu os olhos pelo pátio. Ufa, nada, que alívio. Os cachorros latiam, excitados. Girou a fechadura da porta da frente e, assim que colocou o pé na sala, o coração disparou. Os pais, no sofá, lhe sorriam. Entre feliz e estupefato, sentou-se na poltrona à frente, onde o gato se escondera embaixo.
- O que vocês estão fazendo aqui?
- Viemos te ver, meu amor - disse carinhosamente a mãe, com sua voz doce e calma.
- Como tu tá, Guri? - perguntou o pai.
Ficou olhando-os, sem saber o que dizer.
- A Rosa e as gurias não estão, foram pra praia. Fiquei cuidando a casa e os bichos.
- Nós sabemos, amor.
- Vocês morreram de covid...
- Ninguém morre, Guri.
- Tu também pegou. Foi quase.
- Não estou assustado ou com medo com vocês aqui.
- Nós te amamos, não tem porque estar com medo, meu amor.
- Estava com saudade. Muita.
- Nós também, Guri.
- Eu virei médium? Vejo espíritos, agora?
Os pais trocaram um olhar silente. Um incômodo se fez na sala.
- Vai ali no teu quarto, Guri.
- Por que?
- Vai lá, olha e volta aqui. Queremos te falar uma coisa.
Obedeceu. O gato foi atrás.
Abriu a porta do quarto e, para sua surpresa, também estava lá, deitado. Mas como? Lembrou de se sentir indisposto ontem, tomar um comprimido e deitar. Não recordava de ter acordado e saído pra rua, apenas estava lá, agora que se dera conta disso. O gato subiu na cama e miou. Sentiu-se confuso e atordoado.
Voltou para a sala. Sua mãe atalhou a pergunta:
- Sim, meu amor.
- Como?
- Como todo mundo, um dia, Guri. Como a gente.
- E as gurias...
-Elas ficarão bem. Faz parte.
- Não é justo.
- É o que é, o que tem de ser. Quem sabe é Ele. Somos eternos. Tu compreenderá melhor, passado o topor.
- Vamos, meu amor?
- Vem, Guri.
Já estava na rua, com os pais. Viu o vô Zeca.
- Oi, Paulinho.
- Oi, vô.




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