Seja bem-vindo
São Jerônimo, RS,28/01/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

João Adolfo Guerreiro

JOÃO GUERREIRO | Os caminhos cruzados dos supridores: um cotejamento entre Verissimo e Falero

Porto Alegre e suas classes sociais, ontem e hoje


JOÃO GUERREIRO | Os caminhos cruzados dos supridores: um cotejamento entre Verissimo e Falero

João Adolfo Guerreiro

Escritos num intervalo de 85 anos entre si, os romances Caminhos Cruzados (1935), de Erico Verissimo, e Os Supridores (2020), de José Falero, foram as leituras de dezembro e janeiro do Clube do Livro de Charqueadas e guardam entre si o fato de falarem de Porto Alegre e suas classes sociais.

Verissimo faz um recorte de tempo procurando abordar todas elas em relação e situação, enquanto Falero fica circunscrito a realidade da classe trabalhadora pobre em busca de ascensão social via a criminalidade. Esse já é um ponto de diferenciação importante, eis que, no livro de Erico, os pobres retratados jazem num ambiente de acomodação, exceto pela família do coronel Zé Maria Pedrosa, que enriquecera ao acertar na loteria e busca ser aceita na alta sociedade porto-alegrense da época.

Em Caminhos Cruzados a interação entre as classes é diretamente trabalhada nas searas do trabalho, da caridade e da prostituição. Em Os Supridores isso não é objeto literário, ficando de lado, aparecendo somente quando da relação meramente econômica da venda de drogas ou da percepção dos trabalhadores pobres da sua situação de classe inferior frente a opulência manifesta pelos ricos. Aliás, tal percepção é a base de todas as reflexões, de cunho ostensivamente marxista, que encontramos no livro de Falero. Curiosamente, embora centre na interação entre as classes sociais, o romance de Verissimo, mesmo escrito na época em que o marxismo era um forte instrumento de análise e investigação para tais relações, não traz qualquer reflexão teórica do gênero ou mesmo correlata, mas, apenas, de soslaio, num episódio da trama, quando o chefe demite Fernanda acusando-a injustamente de comunista. Aliás, Erico Verissimo não reflete sobre nada, apenas mostra a discrepância social, despindo-a com mestria, diga-se.

Ambos romances permitem a imersão parcial na Porto Alegre de seu respectivo tempo, o que, além de interessante, é delicioso para os leitores. O que salta aos olhos, contudo, não são as peculiaridades de cada período retratadas, mas sim o fato dos livros mostrarem que a Capital dos Gaúchos, a Cidade Sorriso, continua profundamente desigual, um abismo profundo a separar socialmente banguelas de implantados. Isso aparece em Verissimo como fotografia do momento, enquanto em Falero é o objetivo principal da narrativa reflexiva. De qualquer jeito, tal está em ambos.

A viagem comparativa no tempo da literatura nos traz até esta conclusão socio-econômica: nada mudou, "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais", como cantou Elis, a guria do IAPI.

Recomendo a leitura dos livros, interessantíssima para moradores da Região Metropolitana que tem Porto Alegre sua metrópole de referência. 




COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.