João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Mozart: 270 anos
O músico erudito mais conhecido depois de Beethoven
João Adolfo Guerreiro
Hoje o mundo comemora os 270 anos do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart. Foi em 27 janeiro 1756.
Difícil saber o que escrever sobre alguém que ainda é pop, referência e que todo mundo conhece. Depois de Beethoven, é o músico erudito mais popular. É considerado um compositor do período Clássico. Já Beethoven era do Romântico, embora tenham sido contemporâneos. Beethoven chegou a ter aulas com Mozart, sabiam?
Mozart foi um gênio e um prodígio de seu tempo, antes dos 10 anos já excursionava pelos palácios da realeza da Europa com a irmã e o pai, este último músico da corte em Salzburgo. Amadeus assombrava pela técnica e pela musicalidade, pois possuía o chamado ouvido absoluto (1). Uma de suas proezas era ficar longe do clavicorde (não existia piano naquele tempo, só o cravo e o clavicorde - já Beethoven conheceria o piano) e pedir à pessoa pra tocar uma nota ou acorde no instrumento pra ele dizer qual ou quais elas eram. Jamais errou. Não conseguia errar, dado o talento raro: era todo música
Aos três ou quatro anos o pai o flagrou tocando tercinas ao cravo, por conta própria, buscando acordes, após a irmã (mais velha) largar o instrumento, finda sua aula. Leopold, seu pai, constatou o diamante que possuía em mãos e o lapidou com esmero. Os três estão na pintura acima, que abre este texto. O filho foi a obra da vida do pai. O Mozart que conhecemos é fruto direto da dedicação extrema de Leopold. Ele teria sido grande em seu tempo de qualquer forma, mas não tanto e imortal sem a dedicação paterna, conjecturo.
Fazia as suas obras, sinfonias ou óperas, de cabeça, e tinha preguiça de escrevê-las na partitura. Sim, isso mesmo, fazia de cabeça. Quando ia transcrevê-las, hoje se sabe, iniciava pela partitura do contrabaixo, que era o instrumento que marcava os acordes utilizados na música. Quando da estreia de sua ópera derradeira e mais conhecida, A Flauta Mágica - onde temos a magnífica ária, em Ré Menor, da Rainha da Noite, com seus agudos extremos para sopranos coloratura - foi entregar a partitura da overture (tema instrumental de abertura) somente um dia antes.
Estou escrevendo a esmo, com o que me vem na telha, apenas pra marcar a data. Mozart. MOZART! Uma dádiva de Deus para o mundo. Depois dizem que Deus não existe. Mozart é uma das provas ao contrário. O que mais dizer? Leiam textos sérios sobre sua biografia e escutem a sua música. Digo sérios porque há uma infinidade de lendas à respeito de sua vida, sendo a mais famosa a de que o Mestre do Conservatório Musical da Corte de Viena, o italiano Antônio Salieri, o evenenara por ciúmes - sabiam que Beethoven foi aluno de Salieri? Já escrevi sobre isso no texto "Salieri matou Mozart?". Isso foi até reforçado pelo filme Amadeus (1984), de Milos Forman, mas é apenas lenda.
Fora as pesquisas possíveis na Internet, quero indicar a leitura de um livro de 1954 que tem na Biblioteca Pública Vera Gauss, em Charqueadas: História das grandes óperas e de seus compositores, volume II, de Ernest Nenman, cujo texto biográfico é ótimo, além de possuir uma análise técnica e histórica das óperas, incluindo a partitura de determinados trechos destas. O exemplar está surrado, mas vale a leitura.
Por fim, duas coisinhas mais. Primeiro, não se sabe realmente a imagem de Mozart, eis que as pinturas que existem não são consideradas tecnicamente primorosas. As três que deixo aqui são as mais conhecidas. Diz-se, a partir de testemunhos da época, que era cabeçudo e narigudo. Segundo, deixo abaixo uns vídeos com suas obras que mais aprecio, dentre as mais conhecidas das cerca de 600 que produziu em vida. Destaco a versão da Marcha Turca pra violão erudito de Fábio Lima, grande músico brasileiro que, como Mozart, possui ouvido absoluto.
NOTA:
(1) - Basicamente e resumindo, existem dois tipos de ouvido, quanto a percepção musical: o relativo, mais comum; e o absoluto, encontrado em uma de cada dez mil pessoas. O absoluto, conforme o grande bandolinista brasileiro Hamilton Holanda - que possui ouvido absoluto - seria a "memória absoluta" musical, ou seja, a pessoa grava a nota e a altura em que a mesma se encontra na escala, reconhecendo-a instantaneamente ao escutá-la novamente, seja em instrumentos musicais ou em sons e ruídos da natureza, domésticos ou na rua. O ouvido relativo permite identificar os intervalos e melodias musicais, mas sem precisar o tom e as notas exatas destes. Recomendo-lhes um vídeo de Holanda no YouTube que explica isso em pormenores, com a vantagem dele destacar a importância e a consequência do estudo de teoria musical para o dotado de ouvido absoluto, o que serve pra se ter uma ideia da importância que a formação musical dada a Mozart por Leopold teve na construção de seu gênio.


Vídeos do YouTube:
- Marcha Turca
- Sinfonia número 40
- Sinfonia número 25
- A Rainha da Noite (ária da ópera A Flauta Mágica)
- Eine Kleine Natchmusik



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