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São Jerônimo, RS,01/04/2026

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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | A gente jura que tá agradando

Mas falhamos parcial ou miseravelmente

Reprodução
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | A gente jura que tá agradando

João Adolfo Guerreiro

Perceber o que se passa na mente e no coração dos outros é uma tarefa complicada, mesmo quando a gente observa bem e pensa ter sacado algo óbvio e inequívoco. De crianças a velhos, passando por adolescentes e adultos, por motivos diversos, nos equivocamos.

 

Crianças e velhos somos nós, humanos, em estado bruto: os primeiros por estarem descobrindo a vida e não possuírem malícia; e os segundos por estarem justamente cansados das malícias da vida. Ambos tendem ao sincericídio, principalmente os primeiros. Crianças e velhos dizem as coisas na lata, por motivos distintos: crianças por falta de noção; e velhos por não estarem nem aí, mas com falta de paciência e pudor. Já adolescentes e adultos estão naquela fase onde, mesmo ou com a rebeldia ou com a acomodação, a malícia grassa, junto com o fingimento calculado em busca da satisfação de determinados objetivos. Não dá pra confiar no que sai da boca da maioria dos adolescentes e adultos. Como diriam os alemães Karl Marx e Max Weber, o que nos revela o desejo interior das pessoas são seus interessas materiais e intenções subjetivas, quando os identificamos.

 

Assim, muitas vezes queremos agradar determinadas pessoas, observamos seus gostos e preferências e as agraciamos com convites e presentes que, ao contrário de nossa intenção, falham parcial ou miseravelmente. Por que? Explico: crianças ainda não sabem direito o que querem; adolescentes pensam que sabem o que querem; adultos, por N motivos, fingem querer uma coisa, mas desejam outra; velhos já estão cansados de querer algo deste mundo. Advirto nesse ponto do texto: ele não é um artigo científico, tá? É uma crônica com ares de ensaio, ok? Logo, suas hipóteses são soltas e leves, não rigorosas. Buenas, feita a advertência, sigamos, então.

 

Pois bem, levei a pequena pra ver nos cinemas um desenho que julguei ser 100% de seu agrado, já que era sobre personagens que ela curte, pede brinquedos e roupas deles - inclusive pediu uma específica pro Natal. Assim, com temática envolvendo os personagens em aventuras natalinas, achei que era tiro certo. Tudo bem, ela tem quatro anos e meio e o filme duraria 67 minutos, embora divididos em duas histórias. Daria certo, mas claro que daria, ela assiste episódios do referido desenho por mais tempo que isso no You Tube.

 

Logo de início, ao chegarmos, ela já perguntou:

- Já é Natal?

Informei que não, que seria dali um mês.

- Ah, tá - respondeu.

 

Passando por uma loja do shopping, viu um vestido da Frozen e pediu.

- Não, vou te dar uma roupinha do Zuma, que tu me pediu pro Natal, lembra?

- Não, não quero mais a roupa do Zuma, quero o vestido da Frozen.

- Tem certeza? Se te der o vestidinho, não vou te dar a roupinha do Zuma no Natal.

- Não quero mais a roupa do Zuma no Natal, quero o vestido da Frozen, agora.

- Tá bom, então, tu que sabe. Depois do filme venho aqui e compro.

 

Entramos na sala 2 do cinema. Até uns vinte minutos ela prestou atenção, curiosa e interessada. Depois disso, repentinamente disse:

- Quero sair.

- Ué, por que? Não tá gostando.

- Tô - respondeu sem convicção -, mas quero comprar o vestido da Frozen.

- Ah, espera. A gente vai depois do filme. Tá bom?

- Tá.

 

Terminou a primeira história. Passados cinco minutos da segunda, retornou:

- Quero sair.

- Calma, vamos esperar pra ver se o Papai Noel consegue sair do buraco, antes.

- Não. Quero sair - insistiu, enfática. Vamos lá comprar o vestido da Frozen? - perguntou, olhinhos brilhando, sorriso aberto e mão juntas, suplicando.

- Tá, vamos - aquiesci.

 

Comprado o vestido, fomos pra praça de alimentação.

- Gostou do filme?

- Ahãm.

- Gostou mesmo?

- Posso colocar o vestido da Frozen?






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