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São Jerônimo, RS,01/04/2026

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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Amanhecer e anoitecer

Acabamos anestesiados para a beleza e grandeza deles

Arquivo Pessoal
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Amanhecer e anoitecer

João Adolfo Guerreiro

Amanheceu em Charqueadas, na minha biblioteca. Se eu viver mais 30 anos, o que já é uma excelente perspectiva, considerando minha idade atual, serão mais 10.950 dias, logo, mais 10.950 amanheceres que poderei testemunhar e igual número de entardeceres. E mais trinta aniversários e páscoas e trinta e um natais. Penso isso agora, não pensava antes...

Houve um tempo, décadas atrás, então adolescente, onde dormia o dia inteiro. Quando via que o sol estava quase pra nascer, deitava e só despertava perto das dezoito horas, próximo do entardecer - saudade do tempo em que conseguia dormir dez horas por dia, direto. Vivia de noite, não a noite, como os boêmios falam. Um adolescente ainda não vive a noite, apenas de noite. Naquele tempo o tempo não me preocupava, pois sobrava, parecendo infinito. Hoje a percepção de sua finitude é inescapável. Guardei daqueles dias o gosto pela noite silente, ainda atual em meu espírito.

Hoje quero curtir cada amanhecer e anoitecer porque são belos, o que de melhor se pode ter em termos de natureza por aqui. A gente se acostuma de tanto os ver e acaba anestesiado para sua beleza e significado, toda a grandeza que os envolve: o sol e a terra girando... E só dá pra gente ver isso aqui, dentre os outros planetas do Sistema Solar e muito provável que de toda a Via Láctea. Então isso é grande e é único e eu quero assistir cada episódio! Cada um dos 10.950 dos possíveis amanheceres e entardeceres que terei. Sou otimista e gosto da vida. Acordarei no silencio da madrugada, desfrutando-o, pra acompanhar cada dia chegar.

E, calculando bem, serão mais, pois ocorrerão mais sete anos bissextos até 2055, o que dará mais uma semana, ou seja, 10.957. E, sendo bem preciso em relação a este futuro incerto e aleatório de minha expectativa de vida, tenho de contar os dias que faltam desse 2025, isto é, mais 50 dias, o que, por fim e exatamente, dará mais 11.007 amanheceres e entardeceres. Uau syl, que montão! Mas passarão. Tudo passa, tudo sempre passará. Que o diga o escritor camarense Francisco Pereira Rodrigues, que viveu 107 anos e escreveu até os noventa e lá vai pedrada. Ou minha madrinha Tia Nazinha, que viveu até os 101 anos, tendo nascido no dia da inauguração do primeiro Farol de Torres: 25 de janeiro de 1912. Todavia, passou o tempo e eles passaram. Tudo passa, repito. 

Mas cada dia conta, escreveu Jack no bilhete pra Rose no filme Titanic. Façamos valer, também! Pretendo não perder mais nenhum amanhecer ou anoitecer. O amanhecer de hoje já curti, faltam possíveis 11.006, agora. Isso contando, claro, que eu faleça após o anoitecer de meu último dia neste plano físico, lúcido. Do que sentirei falta, depois do derradeiro dia?

Dizem que a gente morre e se desapega de tudo aquilo que da matéria advém, nossas paixões materiais: comida, bebida, sexo, viagens, banhos de rio e de mar, futebol, artes, tudo. Só levaríamos os sentimentos, os amores e as amizades, as afetividades, em suma. Creio que, assim sendo, levaríamos também alguma boa leitura pra outra vida, eis que esta é um contato humano significativo e atemporal, que nos ligou, aqui, ao passado longínquo. Uns quadros? Umas canções? As artes!

Bom, já refleti demais pra uma manhã de terça-feira. "O dia tá nascendo e nos chamando pra curtir com ele", como cantou o Fábio Júnior. Estou cheio de planos pra hoje. Vamos nessa!




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