MARCELO NORONHA | A cidade onde a seta virou artigo de luxo
Talvez esteja faltando menos buzina e mais educação; uma conscientização permanente, capaz de transformar o trânsito em um espaço mais humano e menos hostil.
alvez esteja faltando menos buzina e mais educação; uma conscientização permanente, capaz de transformar o trânsito em um espaço mais humano e menos hostil. Marcelo Noronha*
Tem cidades em que o trânsito é organizado por semáforos. Outras, por placas. E existem aquelas onde tudo funciona no velho sistema da adivinhação coletiva. Em algumas ruas de Charqueadas, dirigir virou quase um exercício de fé, intuição e reflexo.
O motorista liga o carro sem saber exatamente se vai encontrar uma rua, um estacionamento improvisado ou um teste prático de paciência. A seta, por exemplo, parece ter deixado de ser equipamento obrigatório para virar item decorativo. O cidadão simplesmente dobra. Quem vem atrás que desenvolva poderes mediúnicos.
A faixa de pedestres vive uma crise de identidade. Em teoria, serve para proteger quem atravessa. Na prática, o pedestre coloca o pé nela já calculando aposentadoria, herança e plano funerário. Porque há motoristas que enxergam a faixa não como um aviso de parada, mas como linha de largada.
E há também o curioso fenômeno do “estacionamento criativo”. O sujeito para em esquina, em frente à garagem, em fila dupla, sobre a calçada e, se bobear, dentro da farmácia. Tudo acompanhado daquela serenidade típica de quem acredita sinceramente estar “rapidinho”.
O mais impressionante é que quase todo mundo reclama do trânsito enquanto participa ativamente dele. O cidadão critica a imprudência pelo vidro aberto e cinco segundos depois atravessa sem olhar, atende o celular dirigindo ou resolve disputar uma ultrapassagem digna de classificação de Fórmula 1.
O trânsito de uma cidade é quase um retrato do comportamento coletivo. Ele mostra o quanto cada um entende, ou não, que viver em comunidade exige um mínimo de respeito, paciência e responsabilidade. Porque acidente não acontece só por azar. Muitas vezes ele começa numa pressa inútil, numa distração arrogante ou naquela velha frase brasileira: “não vai dar nada”.
Até o dia em que dá.
Talvez esteja faltando menos buzina e mais educação. Não aquela educação usada apenas em campanhas de uma semana com panfletos esquecidos no banco do carro, mas uma conscientização permanente, capaz de transformar o trânsito em um espaço mais humano e menos hostil.
Porque trânsito não é apenas sobre carros. É sobre pessoas. Crianças atravessando a rua, idosos tentando manter a mobilidade, ciclistas disputando centímetros de segurança e trabalhadores voltando para casa depois de um dia cansativo. Quando o motorista entende isso, dirigir deixa de ser uma competição e passa a ser convivência.
Uma cidade também educa através da sua estrutura. Sinalização clara, pintura visível, faixas bem-posicionadas e rotatórias mais lúdicas e organizadas ajudam muito mais do que apenas distribuir multas. Há cidades que usam paisagismo, cores, elementos visuais e espaços mais agradáveis justamente para induzir redução de velocidade e aumentar a atenção dos condutores. Funciona porque humaniza o ambiente urbano e quebra aquela sensação de pista de corrida no meio da cidade.
No fim, trânsito seguro não nasce apenas da fiscalização. Ele nasce da combinação entre consciência coletiva, planejamento urbano e respeito ao próximo. Porque dirigir bem não é chegar cinco minutos antes. É fazer com que todos cheguem.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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