MARCELO NORONHA | Memória, ciência e o perigoso retrocesso sanitário
A memória das vítimas da Covid-19 precisa servir como alerta permanente. O preço do negacionismo sanitário não é abstrato. Ele se mede em vidas perdidas, em hospitais lotados e em famílias que jamais conseguirão recuperar quem ficou pelo caminho.
pandemia deixou marcas profundas. Foram centenas de milhares de vidas interrompidas, famílias destruídas e profissionais da saúde levados ao limite físico e emocional Marcelo Noronha*
O Brasil oficializou o dia 12 de março como o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. A criação da data deveria representar não apenas homenagem às vítimas, mas um compromisso permanente com a ciência, com a prevenção e com políticas sanitárias responsáveis. Porém, passados poucos anos da maior tragédia sanitária do século, o país ainda convive com sinais preocupantes de retrocesso e descrédito em relação aos cuidados básicos de saúde pública.
A pandemia deixou marcas profundas. Foram centenas de milhares de vidas interrompidas, famílias destruídas e profissionais da saúde levados ao limite físico e emocional. Ainda assim, parte da sociedade insiste em tratar prevenção sanitária como exagero, ideologia ou alarmismo. O negacionismo, infelizmente, não terminou com o fim das restrições da pandemia. Ele apenas mudou de forma.
Um exemplo recente disso foi a repercussão envolvendo lotes de detergentes da marca Ypê após determinação de recolhimento preventivo por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária devido a possíveis falhas relacionadas à contaminação microbiológica. O que deveria servir como demonstração do funcionamento da vigilância sanitária acabou sendo tratado por muitos como “excesso”, “histeria” ou “frescura regulatória”.
E é justamente aí que mora o problema.
Sociedades que evoluem sanitariamente entendem que prevenção é obrigação. Controle de qualidade, fiscalização e monitoramento existem para evitar danos maiores. O fato de um órgão agir preventivamente deveria transmitir segurança à população, e não gerar ataques à própria ideia de vigilância sanitária. Quando uma parcela da sociedade passa a desacreditar até protocolos básicos de segurança em produtos de limpeza e higiene, percebe-se o quanto ainda estamos presos a uma mentalidade retrógrada.
Durante a Covid-19 vimos pessoas desacreditando vacinas, recusando máscaras, atacando pesquisadores e transformando recomendações médicas em disputa política. Hoje, observa-se uma continuidade perigosa desse comportamento: a banalização da prevenção. Parece haver uma dificuldade coletiva em compreender que medidas sanitárias existem justamente para impedir tragédias invisíveis antes que elas aconteçam.
A vacinação continua sendo um dos maiores exemplos disso. Muitas das doenças que já devastaram populações inteiras foram controladas graças à imunização em massa. Quando movimentos negacionistas enfraquecem campanhas vacinais, o risco não recai apenas sobre quem decide não se vacinar, mas sobre toda a coletividade. A consequência pode ser o retorno de doenças antes controladas e o colapso de sistemas de saúde já pressionados.
A memória das vítimas da Covid-19 precisa servir como alerta permanente. Não basta criar uma data no calendário se continuarmos relativizando a ciência e tratando prevenção como exagero. O preço do negacionismo sanitário não é abstrato. Ele se mede em vidas perdidas, em hospitais lotados e em famílias que jamais conseguirão recuperar quem ficou pelo caminho.
Lembrar o passado deveria nos tornar mais conscientes. Mas, em muitos momentos, parece que ainda estamos discutindo questões que já deveriam ter sido superadas há décadas.

(*) Marcelo Noronha, jornalista






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