João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Cuidado: não vire nazifascista!
Fascistas de direita, fascistas de esquerda
João Adolfo Guerreiro
"Nosso amor é nazifascista Você se esconde, eu sigo a tua pista" - dizia a canção dos Engenheiros do Hawaii há 40 anos, no LP de estreia da banda de rock gaúcha, Longe Demais das Capitais. Estávamos, então, em 1986, já passados 41 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.
Quem diria naquele tempo que agora, 40 anos adiante, estaríamos às voltas com atitudes similares aos do totalitarismo nazifascista? Sim, pois nesta segunda-feira seguinte ao domingo de eleição começaram a circular em redes sociais listas de estabelecimentos com proprietários de esquerda (1) a serem boicotados, em cidades do Sul do Brasil onde a votação do bolsonarismo foi absolutamente expressiva e majoritária. E o paralelo se dá com um fato ocorrido na Alemanha há 93 anos e sete meses: o Judenboycott (fotos acima e abaixo).
Aconteceu num sábado, 1° de abril de 1933, com Adolf Hitler recém empossado no poder, e consistiu na intimidação de lojas, comércios, escritórios e consultórios com proprietários judeus, com a formação de piquetes na frente dos mesmos pelos nazistas e pichações nas vitrines identificando-os com a Estrela de Davi. Foi o começo de todo o imenso horror que viria e que só teria fim com a quase aniquilação da Alemanha em 1945. Curiosamente, um grupo tendo como símbolo a estrela (os petistas) novamente é vítima de fato análogo, eis que agora se deu após uma derrota, não triunfo eleitoral, e por vias virtuais, não ostensivas.
Isso mesmo, perseguindo petistas assim como os nazistas perseguiram judeus? Cabe a pergunta, eis que os bolsonaristas que assim procederam - não são todos, mas parte, que creio ser minoritária - são igualmente adeptos de uma ideologia política de extrema-direita, assim como foi o nazismo. E os piores totalitarismos (2) do século XX, o nazismo alemão e o fascismo italiano, chegaram ao poder pelo voto! Imaginem, então, do que o Brasil pode ter escapado domingo? Pois cabe outra pergunta: se perdendo já fazem isso, o que estariam fazendo essas mesmas pessoas se empoderadas e legitimadas por uma vitória? Bom nem pensar.
Além dessa perseguição com nítido viés de inspiração totalitária, também vieram a público sem constrangimento algum pessoas e políticos bolsonaristas instigando empresários a demitir funcionários "petistas", ou seja, todo aquele cidadão eleitor e contribuinte que, no exercício de sua cidadania, fosse identificado de alguma forma como eleitor de Lula por manifestação democrática da sua preferência, por meio de sua liberdade de expressão. O curioso é que isso contradiz totalmente o discurso do candidato derrotado de que cada empregado negociara "livremente" com seu patrão, eis que tal atitude demonstra, isso sim, a correção do que o pensador judeu-alemão Karl Marx chamou de "luta de classes". Uma outra faceta também se manifestou na recusa de grupos e empresas a continuarem fazendo caridade para os pobres, devido ao resultado eleitoral - já escrevi sobre isso na minha crônica de ontem aqui no Portal.
Claro, a polarização faz o ódio entrar na política e, mais do que afastar as pessoas, coloca-as em guerra. Não direi que, caso Bolsonaro tivesse ganho, coisas semelhantes não estariam acontecendo, pois ouvi pessoas, após o primeiro turno, falando que parariam de fazer caridade e só comprariam e frequentariam estabelecimentos de pessoas de esquerda, caso se confirmasse a vitória do senador Flávio. Nesse sentido, digo para as pessoas que, como eu, são de esquerda, que quem chama as pessoas de "pobre de direita" e defende que elas percam sua ajuda governamental é igual esses bolsonaristas perseguidores de funcionários. Sim, não são diferentes.
No caso só mudaria a cor da camisa de quem persegue e da do perseguido. Aconselho a ouvir uma outra canção do Engenheiros do Hawaii, Tribos e Tribunais, onde está na letra: "fascistas de esquerda, fascistas de direita". E ler o clássico As Origens do Totalitarismo (3), de Hannah Arendt. Ajuda a qualificar o senso crítico, independente de quais sejam nossas opções político-eleitorais ou ideológicas num regime democrático. O "pobre de direita", de categoria sociológica (Jessé Souza) interpretativa, científica, virou adjetivo político usado pelo senso comum pra ofender pessoas pobres por sua opção política à direita numa eleição. E quem defende que tenham de perder sua ajuda governamental age igual a empresário que quer demitir funcionário petista: todos autoritários.
Só que o nazifascista não se vê como um, acha natural seu comportamento e é aí que mora o perigo, ele acaba banalizando suas ações autoritárias, o mal que pratica contra outrem a partir de determinado poder que possua. Aliás, indico outro livro de Arendt: Eichmann em Jerusalém, onde ela trata exatamente disso via o conceito de "banalidade do mal". Não sejamos nós nazifascistas de esquerda ou de direita. Tomem esse cuidado.
Pois, como diz mais uma canção do Engenheiros, Toda Forma de Poder, "O fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante fascinada E é tão fácil ir adiante e esquecer que a coisa toda tá errada" - o autor da letra, Humberto Gessinger, a propósito, abriu voto pra Lula no segundo turno.
Tereremos aí quatro anos para proceder o apaziguamento do Brasil ou formar uma ampla aliança nacional a fim de evitar o pior: um governo autoritário ou, o pesadelo, totalitário.
NOTAS:
(1) - Curioso é que empresários se dizendo de direita disseram nas redes sociais que haviam sido colocados nas listas por sacanagem de concorrentes ou por terem funcionários lulistas que não queriam demitir, por não concordarem com tal.pratica autoritária de coação e perseguição.
(2) - Na Ciência Política, o totalitarismo é uma forma extrema de autoritarismo, uma classificação onde, por exemplo, a Ditadura Militar no Brasil não é enquadrada.
(3) - Em seu livro Arendt identifica quatro regimes totalitários no início do século XX: o comunismo soviético, o fascismo italiano, o nazismo alemão e o militarismo japonês.





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