João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | O romance da caneta vermelha
Conforme a caneta, iam unhas e letras
Conforme a caneta, iam unhas e letras João Adolfo Guerreiro
Ela combinava unhas, canetas e letras. Sempre. Vermelha, verde, azul ou preta, conforme a caneta, iam unhas e letras.
Escrever era passatempo lúdico, as cores davam o tom e o espírito: vermelha, para os romances; verde, para os poemas; azul, para os contos; preto, para as crônicas. Escrevia, escrevia, escrevia e escrevia, sempre combinando.
Naqueles dias era um romance, vermelho sangue de uma paixão ardente por um caixeiro-viajante vindo de São Paulo. Sim, era uma história antiga, do tempo em que os caixeiros-viajantes existiam e cruzavam o Brasil vendendo, enquanto singravam o coração das moças com um sorriso de belos dentes e lábia encantadora e envolvente. André, esse era o nome do caixeiro-viajante de Adélia, vendedor de perfumes.
Dela e de Ana, de fulana, beltrana e sicrana, além de outras anas mais. Singrava e sangrava corações em cada rodoviária ou estação, como se fossem portos de adeus. André, esse era o nome do seu. Partiu, sumiu. Adélia sangrou. Chorou lágrimas de diamantes abandonados, maior preciosidade que possuía. Um coração quebrado que chorava diamantes abandonados, eis Adélia.
André se fora pra Joana, Luana, Cassiana, Mariana e pra outras anas mais, tão longo fosse o caminho. Para ele, todas fulanas, beltranas e sicranas, perfumes baratos demais pra se levar na caixa. E assim seguia o romance vermelho, a caneta rubra sangrando o papel: Adélia no inferno, André no céu. Só que o final só a ela dizia respeito, e o destino de André seria cruel: Adélia no chão, André no céu.
Todo dia ela escrevia a história da jovem Adélia e do caixeiro-viajante André, sempre combinando unhas, letras e canetas. Um dia André, num rio cursivo de sangue, acidentou-se e foi pro céu, e Adélia teve o seu ponto final encarnado. Romance encerrado.
Descoloriu as unhas com acetona. Olhou para os esmaltes. Decidiu: sairia pra comprar uma caneta verde! Já era quase primavera e a poesia da vida chamava pelo gênero afim.





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