João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | O morro dos ventos uivantes - o filme
O filme é uma versão sexual do livro
O filme é uma versão sexual do livro João Adolfo Guerreiro
Abaixo, explico a frase acima, comentando sobre o filme O morro dos ventos uivantes, versão recente da diretora Emerald Fennell para o icônico clássico da literatura mundial escrito por Emily Bronte, em cartaz nos cinemas.
Pressuponho leitores que tenham lido o livro, mas que não tenham assistido o filme. Logo, o texto será breve, apenas visando atiçar a curiosidade de quem conhece a obra para o filme.
Na verdade, esse elabora intensa e magnificamente a relação intrínseca que o sexo tem com a vida e a morte, trazendo algo que no livro é só tensão sexual, pois nele Cathy e Heathcliff não transam, enquanto na tela... O prazer sexual como fonte de vida e destruição, beco sem saída para indivíduos integrantes de determinada sociedade: a convenção versus o tesão. Dura realidade, abismo.
Mas tudo isso coisa de muito bom gosto no filme, sem putaria. A propósito, as melhores cenas julgo serem: a inicial (prestem muita atenção nela, desde os sussurros com a tela escura), que simboliza tudo o que o filme abordará de forma crua, mas inteligente; e a cena de Cathy espiando a transa dos empregados, cheia de significados sociais que poderão ser sacados logo adiante na história, quando Cathy visita sua ex-casa e fala com o homem sobre a empregada.
A versão de Fennell é, senti na poltrona, meio longa para esse tipo de enredo erótico. Penso que esticou demais a parte das transas - pelo menos a mim enfadou. É bem diferente do original de Bronte: básica, sintética e distorcida. Entretanto, as distorções fazem justamente parte da versão que a diretora quis fazer, principalmente a ótima cena inicial - que é muito forte e impactante, advirto os sensíveis e incautos. Quais são as sínteses e distorções? Ah, se eu disser aqui entrego o filme pra vocês que não o assistiram. Mas refiro: não é nada superficial ou gratuito na direção de Fannell, é coisa de gente grande.
O livro é visceral e o filme é genital. Todavia, tudo isso é parte de a mesma totalidade biológica, não é mesmo? Um, frio e uivos; outro, calor e gemidos: ao final, ambos convergem pro mesmo desespero e tragédia.
Mesmo apresentando muita diferença em relação ao livro, o filme vale o ingresso pra quem leu O morro dos ventos uivantes e gostou. Calientíssimo, mas não apelativo. Os morros uivam, sussurram, suspiram e gemem ante tanto calor sexual humano, transbordando em vida e morte. Deixo, abaixo, o trailer do filme.
Uma boa semana curta pra vocês, que começa nesta Quarta-feira de Cinzas, após o feriado de Carnaval. Cuidem-se, vacinem-se, leiam, vão ao cinema, vivam e fiquem com Deus.



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