JOÃO ADOLFO GUERREIRO | O mestre-sala das letras, amigo do João

Só podia dar no sucesso que deu essa parceria musical

A Covid-19 já nos levou tanta gente, até agora. Já passamos dos 7.000 óbitos aqueles os quais um grande empresário disse - e depois se desculpou por ter dito - que, no máximo, ocorreriam e pelos quais a economia não poderia parar. E não estamos ainda nem na metade do problema no Brasil! Pelo menos aqui na Região Carbonífera estão todos bem, graças a Deus.

Ontem a pandemia levou também o cronista e compositor carioca Aldir Blanc, um dos expoentes de toda uma geração da Música Popular Brasileira - MPB. Aos 73 anos, o parceiro de João Bosco, com quem produziu uma penca de grandes clássicos de nossa música, não resistiu às complicações da doença. Como nada é por acaso, Blanc era morador do Rio, estado dos mais atingidos e já com 92% de sua capacidade hospitalar total comprometida, e do grupo de risco, pela idade. Quantos anos ela tirou abruptamente de seu ciclo vital natural? Na minha família tem gente dez anos mais velha do que ele.

Não conhecia seu trabalho como cronista. Faz um tempo que li num jornal o lançamento de um livro seu e desejava comprar, mais fui adiando, tendo em vista outros títulos. Logo, na minha biblioteca, onde estou sentado agora escrevendo, há vários e vários cronistas, mas Aldir não. Todavia, na memória musical e em CD, ele está presente. O LP cuja capa ilustra essa crônica li e ouvi antes dos dez anos de idade, quando ainda morava na Colônia. Minha mãe estudava música na Palestrina, em Porto Alegre, e comprava os fascículos dessa coleção, que vinham com um disco e com um grande e excelentemente escrito e ilustrado encarte. Eu os devorava e eles fizeram parte da formação de meu gosto musical.

Esse LP continha várias canções de João Bosco e seu amigo-parceiro Aldir, como De frente pro crime, Kid Cavaquinho, Dois pra lá dois pra cá e O mestre-sala dos mares. A D O R E I essas canções. Só falta no disco O bêbado e a equilibrista, para incluir todas as minhas preferidas da dupla, as quais toco vez ou outra - De frente, Kid e O bêbado - num violãozinho que possuo e que é pouco maior que um cavaquinho. Dupla perfeita, genial: Aldir, o mestre-sala das palavras, poeta requintado compondo letras que se assemelhavam a crônicas urbanas; João, um monstro, possui as melhores mãos direita e esquerda do violão popular brasileiro, um músico completo, sofisticado, respectivamente, tanto harmônica quanto ritmicamente. Só podia dar no sucesso que deu essa parceria musical como poucas na história da MPB. Aliás, de cabeça, assim, não consigo pensar em dupla melhor. Sá e Guarabyra? Sullivan e Massadas? Roberto e Erasmo? Tom e Vinícius? Vinícius e Toquinho? Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira? Raul e Coelho? Bôscoli e Menescal? Milton e Brandt? Frejat e Cazuza? Antônio Carlos e Jocafi?

Faleceu um mestre, acometido pela doença que, daqui um tempo, quem sabe, poderá se dizer sobre o modo pelo qual o povo hoje a combate: "Glória, a todas as lutas inglórias, que através da nossa história, não esquecemos jamais". A canção citada de Aldir Blanc é O mestre-sala dos mares, que fala sobre a Revolta da Chibata - que completará 110 anos em novembro desse ano - e de seu líder João Cândido (O Almirante Negro), marinheiro nascido em Encruzilhada do Sul/RS há 130 anos, num Dia de São João, e que faleceu em 1969 no Rio - assim como Aldir - tendo "por monumento as pedras pisadas do cais".

Grande Aldir! O João disse que seguirá cantando as canções nascidas da amizade e da parceria, enquanto viver. E, nós, ouvindo-as.