JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Nazistas presos em Charqueadas na Segunda Guerra

Nascemos num lugar e só sabemos de certas histórias bem depois

Pois é, a gente nasce num lugar e só vai saber de certas histórias bem depois e bem longe de lá. Fui a Torres por esses dias e, como sempre faço quando vou nessa cidade curtir o mar, passo nas livrarias para comprar algo. Nesse sentido, adquirir cada publicação recente do jornalista e historiador porto-alegrense radicado em Torres, Nelson Adams Filho, é obrigatório a fim de conhecer fatos da história local. Dessa vez, porém, ao ler “A II Guerra Entre Nós - volume I”, fiquei sabendo de coisas lá do bairro Colônia Penal, onde nasci.

Sabiam que na Colônia Penal Daltro Filho, a CPA, quando ela funcionava ali onde hoje é a Penitenciária Estadual do Jacuí (PEJ), era um campo de concentração para simpatizantes e apoiadores brasileiros do nazismo? Pois eu não sabia, e olhem que meu avô materno, Adolfo (vejam só, que ironia, né) trabalhava ali. Como ele morreu no final da década de 1950, muito antes de eu nascer, não o conheci e, por isso, não ouvi as histórias dele. Essa, talvez, seria uma delas. Minha mãe é a filha mais velha, estava com 14 anos quando seu pai faleceu, mas também nunca nos disse algo a respeito. Tampouco os mais velhos da minha época de infância comentavam sobre isso, falavam apenas dos ocorridos na vigente Ditadura Militar, contudo de forma muito reticente.

Adams Filho relata em seu livro que entre 50 e 65 pastores luteranos estavam concentrados na CPA, dentre os cerca de 90 alemães que compunham sua população carcerária. Segundo o autor, esses campos existiam no Brasil todo em número de, no mínimo, dezessete, de acordo com algumas pesquisas, embora outras falem em quantidade maior. E, mesmo que não tivessem os horrores de seus correspondentes europeus, eram campos de concentração acobertados sob o eufemismo de colônias agrícolas.

Quando o Brasil declarou guerra às potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), em 1942, a perseguição a nazistas e fascistas em solo pátrio deu-se principalmente nas comunidades de descendentes de imigrantes oriundos desses países. Os pastores luteranos estavam entre os que mais possuíam atividade política ligada ao partido nazista, o NSDAP, via a embaixada alemã. Essas pessoas eram suspeitas de agitação política e, também, espionagem. Todavia, não eram apenas os religiosos luteranos alvos da polícia política brasileira: católicos também foram presos, como é o caso, mencionado no livro, dos padres de Santo Antônio da Patrulha e de Canoas.

Não direi mais nada sobre “A II Guerra entre nós”, visando deixar algumas surpresas sobre o assunto para charqueadenses, moradores da região ou funcionários do complexo prisional que estiverem pelo litoral e passarem nesse sábado por Torres, a fim de conferir o lançamento da obra na livraria Super Livros, às 19 horas.

Após o recente alvoroço provocado pelo vídeo repleto de referências nazistas do ex-secretário da Cultura do governo federal brasileiro, o livro de Adams passa a ter um interesse a mais para o leitor desse verão. E, também, porque ontem tivemos o marco de 75 anos do dia em que as tropas russas libertaram os judeus sobreviventes no campo de concentração Auschwitz-Birkenau, nessa guerra mundial que produziu uma inusitada aliança entre liberais (EUA e Inglaterra) e comunistas (URSS) contra o nazi-fascismo.