JOÃO ADOLFO GUERREIRO | A breve e decidida Teresinha

A passagem de Teresa por esse mundo foi breve

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | A breve e decidida Teresinha
Imagem de Santa Teresinha em vitral da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, em Charqueadas

Marie Françoise Thérèse de Martin (2.1.1873 - 30.9.1897) era uma guria francesa religiosa e decidida. Queria ser freira carmelita, mas tinha apenas 14 anos. Assim, sem se queixar ao bispo, foi diretamente a Roma ver o papa e pedir para que ele a autorizasse. "Você vai entrar se for a vontade de Deus" - disse o Pontífice, genérico. Insatisfeita com tal fórmula, fez o mesmo que fazia quando criança: não arredou o pé da frente de Leão XIII, permanecendo ali até que a Guarda Suíça a carregasse para fora. Bom, o fato é que tal disposição deu resultado e ela conseguiu o que queria: quatro meses e dezenove dias depois, Teresa tornou-se uma postulante a carmelita; passados mais nove meses e um dia já era noviça; e, finalmente, após mais um ano, nove meses e quatorze dias, tornou-se, aos 17 anos, freira da Ordem dos Carmelitas Descalços (assim chamados por não usarem sapatos, mas apenas sandálias rústicas).


Teresa era, podemos dizer, uma católica raiz, literalmente de pai e de mãe. Louis (22.8.1823 - 29.7.1894) e Zélie Martin (23.12.1831 - 28.8.1877) eram filhos de militares, estudaram em escolas religiosas e pretenderam seguir essa vida, mas sem sucesso. Então, num desses caminhos do destino, em 1858 encontraram-se em cima de uma ponte, começaram a namorar e casaram poucos meses depois. Decidiram, inicialmente, conduzir um casamento de religiosidade e caridade, virtuoso e casto. Isso mesmo, sem sexo, um casamento platônico. Eles levavam a sério a coisa de amor e dedicação ao próximo. Entretanto, seu confessor os convenceu que gerar filhos fazia parte da obra divina para um casal. Eles entenderam o recado e fizeram nove. Destes, cinco mulheres tornaram-se freiras, inclusive a caçula, Teresa. Para resumir, saibam que esse casal virou santo, agora em 2015, no papado de Francisco. Realmente, esses dois levaram muito a sério a coisa.

Voltemos a Teresa. Era, além de decidida, também uma sobrevivente. Ao nascer, a enterite, mal que levara quatro de seus irmãos, por pouco não a vitimou. Mais adiante, em 1882, já órfã de mãe, perda que a abalou seriamente, um médico diagnosticou seu jeito extremado como "ataques neuróticos". Em 13 de maio de 1883, uma imagem de Virgem Maria em sua casa sorriu para ela e, depois disso, "plus jamais" tais ataques. Na véspera do Natal de 1886, dia do aniversário de sua falecida mãe, teve a sua "conversão completa", superando o luto materno e decidindo-se pela vida religiosa, daquele seu jeito todo característico de ser e sentir que, segundo uma biógrafa, consistia num "temperamento que não admitia comprometimentos ou moderação, uma vida gasta não domando, mas dirigindo seu apetite e sua vontade". Ora pois, a guria era decidida!

Teresa, como já dissemos, entrou para a Ordem dos Carmelitas Descalços, oriunda da Ordem dos Carmelitas - que fora reformada, retomando aspectos de seu sentido original, no período quinhentista, em plena Reforma Protestante, por Santa Teresa de Ávila (1515 - 1582). Todavia, foram os escritos de outro expoente da Contrarreforma e, igualmente, fundador da Ordem dos Carmelitas Descalços, São João da Cruz (1542 - 1591), que a influenciaram. Em sua vida religiosa, Teresa se voltou para o "pequeno caminho", ou seja, conforme suas palavras: "Às vezes, quando leio tratados espirituais nos quais a perfeição se revela através de milhares de obstáculos rodeados por uma multitude de ilusões, minha pobre mente pequena rapidamente se cansa. Eu fecho o livro erudito que está quebrando minha cabeça e secando meu coração e abro as Sagradas Escrituras. Então tudo se ilumina para mim; uma única palavra descobre para minh'alma infinitos horizontes; a perfeição parece simples; percebo que é suficiente para reconhecer nossa própria insignificância e para nos abandonarmos, como crianças, nos braços de Deus. Deixo para grandes almas, para grandes mentes, os grandes livros que não compreendo, me regozijo em ser pequena por que apenas crianças e os que são como elas serão admitidos no banquete celeste".

Seria demasiado longo abordar em pormenor, em uma crônica de jornal virtual, a vida espiritual e o legado de Santa Teresinha, como ficaria póstuma e popularmente conhecida e, por isso, muita coisa sobre ela ficou de fora desse pequeno texto. Assim, além da citação acima, basta dizer que ela é uma das santas mais reverenciadas do período pós-apostólico, tal como São Francisco de Assis. Canonizada em 15 de maio de 1925, apenas 28 anos após sua morte, seus escritos autobiográficos (A história de uma alma), feitos nos últimos anos de sua vida, a partir de 1895, são forte referência e influência para muitos fiéis e religiosos. Sua festa litúrgica acontece em primeiro de outubro.

A passagem de Teresa por esse mundo foi breve, pois ela faleceu em 20 de setembro de 1897, aos 24 anos, após longo e lancinante sofrimento físico provocado por uma tuberculose. Contudo, essa decidida garota francesa, virtuosa e dedicada a sua religiosidade, deixou um exemplo de fé e simplicidade que deveria ser conhecido por muitas pessoas interessadas numa vida dedicada para o amor ao próximo, nas várias facetas em que ela pode ser concretizada.