João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Ao mestre Benito di Paula
O cantor e compositor faleceu ontem
João Adolfo Guerreiro
Cresci na Colônia escutando no rádio do meu pai, dentre outros, Benito di Paula, nos adoráveis anos 1970. Foi um gosto que permaneceu pra toda vida. Em 23 de novembro de 2023 fui no seu show no Araújo Viana, junto com o filho Rodrigo (foto acima) em Porto Alegre...
No início dos anos 2000 tocava violão e guitarra acompanhando o cantor e compositor Alberto Beto André e, certa feita, ele defendeu a canção A Bomba num festival da Ulbra em São Jerônimo. Ele, eu, Chocolaty no baixo, Gilson no teclado, Sieben no violino e Paulo Alemão na bateria. Tudo ok nos ensaios, mas na passagem de som o Alemão, baita músico, ex-Voz Ativa como o Beto, resolveu dar um molho diferente e tocou a batera marcando o contratempo da canção. Pra quê! Ficou todo mundo no ar. Paramos e ficou decidido que ele não tentaria isso, pois a banda não estava tão orgânica praquilo. Jamais esqueci disso, foi uma lição que, sobretudo, ficou clara quando li uma declaração de John Paul-Jones, baixista do Led Zeppelin: "A gente toca nos contratempos, mas pra fazer isso todos da banda tem de saber na cabeça exatamente onde está o tempo". Outra vez que recordei o episódio foi em 2016 num show do guitarrista John McLaughlin no Teatro do Bourbon Country, onde, numa determinada música, eles fizeram a primeira parte tocando a harmonia e, depois, todos partiram para improvisos individuais simultaneamente, tendo por referência a harmonia inicial, só que ela ficou subtendida, tão somente. Incrível, quatro instrumentos (guitarra, teclado baixo e bateria) improvisando "no ar" sob uma base harmônica e rítmica, cada um prum lado, mas sem sair da base. Uau syl!
Escrevi esse longo parágrafo acima pra vocês entenderem minimamente o que ouvi e vi Benito fazer naquele show em 2023. Um mestre! Vou transcrever parte do artigo que fiz pro Portal de Notícias na oportunidade, 28 de novembro de 2023:
"No domingo assisti ao show do Benito di Paula no Araújo Viana. Gente, o velho está em plena forma artística aos 82 anos - faz níver hoje -, cantando e tocando magistralmente! Tá devagar na mobilidade, mas sentado no banquinho, de frente pro piano e pro microfone, mas bah! O público adora ele! "Benito, te amo!", "Benito, te amamos!" e "Benito, Porto Alegre te ama!" era só o que se ouvia, aos berros, da plateia, da ala feminina. Até "Lindo!" saiu, exageradamente, claro. Palmas e palmas e palmas, o pessoal cantando junto TODAS as canções, sintonia total. E ele não deixou por menos: desceu pra onde estava seu público e cantou de lá um bom tempo.
Eram sete músicos sobre o palco: Benito e seu filho (foto abaixo) no piano e voz, mais um batera, um baixista, violonista e dois percussionistas. Todos feras. E Benito deu trabalho pros caras, exigiu concentração total destes. Parece que, ao vivo, quer mostrar pro pessoal que é fera demais no piano. Nos plays a gente saca que é bom, mas ao vivo é ótimo! Ele mexeu com as harmonias das canções com muita sofisticação, quase no limite de descaracterizá-las em comparação com as gravações originais. E fez isso com a parte rítmica também, às vezes mexendo na harmonia e no ritmo simultaneamente. Quando tocando sozinho, o público - assim como no filme de Scott (1) - teve de saber "a história original" da canção pra entender o que o mestre estava fazendo; quando com a banda, os caras tiveram de segurar tudo pra ele viajar até o cosmos musical e voltar como se isso fosse coisa simples e fácil. Isso sem falar que, quando cantava, iniciava sempre no limite do tempo da canção, quase perdendo-o - quase, pois mostrou que sabe brincar com o perigo, dançando no campo minado rítmico e nas cordas bambas e afinadíssimas de seu piano.
Que baita show! Voltei a ser criança nos anos 1970, quando ouvia numa tarde de sol uma canção sua - não lembro qual - no rádio de pilha do meu pai, em meu colo, sentado ao lado da garagem da casa. Não vi Napoleão perder a Guerra, mas já não vou morrer sem ter visto Benito esmerilhar aos 82 anos sobre o palco".
Soube hoje pela manhã que o maestro morreu. Fica com Deus, Benito de Paula.
Uma boa semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam, curtam Benito de Paula e fiquem com Deus.
(1) - Refere-se ao filme Napoleão, de Ridley Scott, para o qual era necessário determinado conhecimento histórico prévio para o espectador não se perder nos cortes de tempo do filme e entender a "viagem cinematográfica" do diretor.




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