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São Jerônimo, RS,20/08/2026

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João Adolfo Guerreiro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Torto Arado: leitura e debate

Um primor em 260 páginas

Reprodução
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Torto Arado: leitura e debate

João Adolfo Guerreiro

Há vinte dias falei aqui sobre o livro Torto Arado, deItamar Vieira Junior, que foi lido e debatido ontem na Biblioteca MunicipalVera Gauss pelo Clube do Livro de Charqueadas. Disse então que achava o tituloe a capa estranhos e, não fosse pelo Clube, não teria curiosidade de ler. Poisentão: abençoado Clube!

Uau syl, o livro é hipermegasuperultra fodástico, um primorem 260 páginas que justifica plenamente todo o barulho em torno de si, a grandevendagem e as loas de crítica e de público, passa longe de ser um Tudo é Rio. Acapa é inspirada na foto acima, mas essas daí não são as personagens Bibiana eBelonísia, as irmãs de Torto Arada. O livro é dividido em três partes, cada umacom um narrador diferente para a história: Fio de corte, por Bibiana; Tortoarado,  por Belonísia; e Rio de sangue, pela entidade Santa RitaPescadeira. Faz um recorte da exploração dos ex-escravos da Abolição para osdias recentes numa história com múltiplas camadas: religiosa, política,ideológica, trabalhista, que vão de temas desde a exploração aviltante dotrabalho até a violência contra mulher. E Itamar faz tudo isso sem ser chato,mas sim através de uma escrita fluída que te pega.

Ah, uma observação pertinente: o escritor e desenhistaCristiano Quintana, em sua avaliação durante o debate, deu 9.7 para o livro,porque o início é meio arrastado e pode afastar o leitor, ponto de vistaanálogo ao do professor Fernando Mendes. Concordo com eles, fato, mas pra quemsegue adiante a recompensa é um diamante raro, nota 10. Como podemos perceberno testemunho da Elizebeth Kappel, do Bússola Literária: "Ler Torto Aradomexeu com todos os sentidos. Eu fui uma criança parecida com Belonísia eBibiana, lembrei das minhas aventuras com meu irmão, nós com o facão do nissopai cortando o mato pra brincar de 'Indiana Jones'. Lembrei de colocar uma vezum metal enferrujado na boca pra saber que gosto tinha, e também de tocar umdedo no sangue do joelho ralado e depois levar até a boca. Senti também ocheiro dos peixes, da chuva, da madeira molhada, do hálito de bebida. Ouvi osgritos, os insultos, pude imaginar o choro abafado das crianças e o silêncio datristeza. Lembrei da minha vó e de como ela varria as folhas do pátio, cuidavadas flores, da horta, ela fazia da casa um lar, como Belonísia. Eu e a cadapágina via a paisagem, as casas, e refletia sobre era quem era o dono dessas, ede outras terras."

E era isso. Recomendo a leitura de Torto Arado, obrigatóriapara os apreciadores da iterativa brasileira.

PS - Parabéns para a Marina Vencato, que soprou 29 velinhasontem no Clude do Livro.

 



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