João Adolfo Guerreiro
JOÃO ADOLFO GUERREIRO | David Coimbra
Tudo terá fim um dia: liberdade
João Adolfo Guerreiro
Recuperou a coragem. Na verdade, a força do espírito, até pouco ainda atormentado e confuso, imerso na onda do baixio. A dor continuava, mas o medo findara. De uma forma ou de outra, para o bem ou para o mal, tudo tem fim neste mundo, até ele mesmo, um dia.
Não era verdade a sentença otimista que sua mãe repetia: "O mundo só acaba pra quem morre". Não, num dia, mesmo que distante, o fim do mundo virá, o fim de tudo. Não será o Apocalipse da Bíblia, mas um fato natural cientificamente sabido e previsto, o que dá quase no mesmo. Assim, a morte ganhava outro sentido, muito maior que o encerramento de uma vida humana, a sua vida. A angústia passava a ser uma certeza científica para o mundo físico e para o que nele ainda é desconhecido, no universo. Só a outra vida, a espiritual, restava e era consolo de fé, mesmo assim, algo racional, humano. Quando a onda subia, sentia-se confortável, ereto sobre seus pés, embora a dor continuasse.
Ser criança é não sentir dor e se sentir acolhido pelos adultos. Ser jovem é não sentir dor e descobrir o mundo e o prazer. Depois de uma certa idade, a dor passa a ser presente, crônica até para alguns. Algo sempre está doendo. E se tem as perdas, acumulando-se pelo caminho, e, com elas, a falta e a solidão crescente, além do risco palpável do abandono. E, com a dor, o medo e, em determinadas situações, a angústia. - o baixio, que vem em ondas. Quer viver muito? Ter uma vida longa? Prepare-se para o inevitável.
Todavia, tem o fim, o fim para tudo que, paradoxalmente, será a liberdade. Quem diria, né? David Coimbra escreveu algo parecido poucos dias antes de morrer. Disse que desejou morrer para se livrar da angústia produzida por seu corpo, num extremo de baixio, acossado por uma dor lancinante. Escreveu uma crônica excepcional, praticamente sua carta testamento literária. Coimbra era muito bom.
Viver é bom. Morrer é fato. Dor é processo. Medo e angústia são contingência. Tudo terá um fim.




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