Juremir Machado e General Câmara

Entrega da Medalha do Mérito Farroupilha ao jornalista Juremir Machado da Silva

Juremir Machado e General Câmara
Juremir Machado da Silva e General Câmara

Fui ontem, na Assembleia Legislativa (AL/RS) acompanhar a solenidade de entrega da Medalha do Mérito Farroupilha ao escritor, professor universitário, sociólogo e jornalista Juremir Machado da Silva, concedida em reconhecimento ao seu trabalho no Correio do Povo e na Rádio Guaíba. Como Juremir é uma das minhas referências no jornalismo de opinião gaúcho, desejava conferir o que ali aconteceria e seria dito.

Muita gente no Salão Júlio de Castilhos, na AL/RS, prestigiando Machado, ante o imponente quadro que retrata o político gaúcho (1860 – 1903) que nomeia aquele espaço, feito em Roma, no ano de 1905, pelo pintor porto-alegrense Pedro Weingärtner (1853 – 1929). Senti-me quase deslocado ali, vendo tanta gente de terno e eu bem esportivo, eis que iria ao jogo do Grêmio à noite. Compareci ao evento por ver uma postagem no Facebook convidando para o mesmo. Estavam lá muitos deputados estaduais, logicamente, dois ex-prefeitos de Porto Alegre, representantes do judiciário, ex-deputados federais e estaduais, jornalistas, dentre outros.
Reparei na fala do deputado Jeferson Fernandes, proponente da láurea, que acentuou a “imparcialidade” de Machado na sua atividade jornalística. Eu não acredito em imparcialidade e neutralidade, devido a minha formação em Sociologia. Essa perspectiva, hoje ultrapassada, se encontra em pioneiros dessa ciência como Emile Durkheim (1858 – 1917), que pretendiam um método de investigação para a sociologia à moda das ciências naturais. Na verdade creio em isenção e objetividade possíveis, eis que todos possuímos uma respectiva visão de mundo. A isenção e a objetividade nos permitem, mesmo ante nossa incontornável parcialidade subjetiva, não brigar com os fatos em nossas análises, coisa que o matemático e filósofo Bertrand Russel (1872 – 1970) disse naquele famoso vídeo Mensagem para o Futuro.
Fiquei curioso para ver o que Juremir diria no seu pronunciamento sobre isso, sendo ele doutor em Sociologia. Disse que o jornalista por vezes necessita tomar e ser parte e ter opinião em questões como o preconceito, feminicídio, racismo, homofobia, intolerância dentre outras. Ressaltou com mais ênfase que o jornalista tem de ter independência em relação aos vários interesses sociais, econômicos e políticos de seu tempo e, com esse intuito, citou outro pioneiro da Sociologia, Max Weber (1864 – 1920), no livro Ciência e Política (“uma leitura obrigatória para todos que fazem política, ciência e jornalismo”), o pensador liberal Stuart Mill (1806 – 1873), o jornalista abolicionista brasileiro Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e o sociólogo alemão Jürgen Habermas (1929), cuja ênfase do pensamento, a “esfera pública”, intitula seu programa na Rádio Guaíba. Como Machado igualmente enfatizou a procura pelo contraditório em seu programa, fica clara sua inspiração em Habermas, defensor de uma “ação comunicativa” racional na busca da verdade e do consenso, falando grosso modo.
Encerrada a solenidade, antes de acompanhar o grande expediente, dei uma banda pelo Solar dos Câmara, atrás da AL/RS. Uau syl, coisa de rico aquilo! Imagina, em 1818 (sim, a casa tem 200 anos) muito poucos possuíam grana suficiente para construir uma residência daquelas, enorme, com cômodos amplos e luxuosos, ricamente ornados. Atualmente é propriedade da Assembléia, que a comprou em 1981, depois que o último dos Câmara morreu, em 1975, sem deixar herdeiros. Mas, na verdade, quem mandou construir o enorme solar não foi um membro dessa família, mas sim José Feliciano Femandes Pinheiro (1774 – 1847), o Visconde de São Leopoldo. Ocorreu que José Antônio Correia da Câmara (1824 – 1893) casou com a filha do Visconde. Câmara adquiriu fama como militar, tanto por ter combatido os farroupilhas (nunca esqueçam que Porto Alegre manteve-se leal ao Império) quanto pela Guerra do Paraguay. E ele se tornou conhecido para a história como General Câmara, inclusive nomeando a homônima cidade daqui da Região Carbonífera, que, ironicamente, faz divisa com a Triunfo natal do líder farrapo Bento Gonçalves (1788 – 1847).
Bom, nisso Juremir e o General tem um ponto em comum: o primeiro criticou a Revolução Farroupilha em livro e o segundo a enfrentou nos campos de batalha. O jornalista inclusive observou que um crítico como ele receber a Medalha do Mérito Farroupilha poderia soar incoerente, mas, entretanto, dedicou-a “aos negros que morreram em Porongos”, referindo-se a um dos episódios mais infames daquele conflito, batalha que ele aborda em seu livro História Regional da Infâmia (2010).
Engraçado perceber como as coisas, por vezes, se entrelaçam no tempo e o espaço, não é mesmo?