Médica veterinária orienta sobre o controle do morcego nas zonas urbanas e rurais

Apesar do incômodo, animais são importantes para o meio ambiente e são protegidos pela Lei do Meio Ambiente

Por Portal de Notícias 02/05/2019 - 11:33 hs
Foto: Banco de Dados
Médica veterinária orienta sobre o controle do morcego nas zonas urbanas e rurais
Telhados e sótãos são algns dos locais onde os morcegos instalam suas colônias

Marcos Essvein

A notícia de que no final do mês de abril, na área rural de Arroio dos Ratos, mais de dez bovinos morreram infectados pela raiva dos herbívoros - transmitida pelo morcego da espécie Desmodus rotundus (hematófago)chamou a atenção, também, para outro problema: a população de morcegos urbanos.
De acordo com a médica veterinária da Secretaria Municipal da Agricultura de Arroio dos Ratos, Roberta Tavares Costa, é necessário o controle populacional dos morcegos hematófagos – que se alimentam de sangue. Esse controle é feito por pessoal habilitado e imunizado.

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No entanto, as demais espécies, que habitam tanto áreas rurais como urbanas são importantes para o equilíbrio dos ecossistemas e não devem ser exterminadas. Estas espécies são classificadas de acordo com a alimentação: de frutos (frugívoros), de néctar e pólen das flores (nectarívoros), de insetos (insetívoros) ou de pequenos vertebrados (carnívoros).
Estes morcegos atuam no controle de pragas e, também, na polinização e a disseminação de sementes de plantas. Além disso, fazem parte da fauna brasileira e são, portanto, protegidos pela Lei Federal 9.605/98 (Lei do Meio Ambiente). Apesar de causarem incômodo na zona urbana, infestando sótãos e outros locais e provocando mau cheiro, matar estes morcegos é crime ambiental.
O manejo da vegetação e o afugentamento e vedação dos locais de entrada e saída em telhados, porões, vãos de ar-condicionado, entre outros, são as principais formas de controle. A limpeza das fezes também deve ser feita com cuidado e com uso de luvas de borracha, botas e máscara. Antes de remover a sujeira, é importante aspergir uma mistura de água e hipoclorito de sódio (água sanitária), na proporção de 1 para 1, sobre todos os restos orgânicos, para evitar a formação de poeira e inalação de fungos.
- Devemos evitar a morte indiscriminada desses animais, conscientizando a população quanto à importância de manter vacinados (anualmente) contra a raiva os animais domésticos (cães e gatos) e os animais rurais (equinos e bovinos) – alerta a veterinária Roberta Costa.



A pedido da reportagem, Roberta preparou material com orientações sobre o morcego. Leia a seguir:

MORCEGOS E SUAS CARACTERÍSTICAS

Os morcegos pertencem à ordem Chiroptera da classe dos mamíferos. São animais que as mãos sofreram modificações e se especializaram para o voo, como asas. Representam um quarto das espécies de mamíferos do mundo, chegando a mais de 1.100 espécies descritas. Existem fósseis datados de 30 milhões de anos atrás e são os únicos mamíferos que voam.
Os morcegos são de hábito noturno saindo de seus abrigos ao entardecer ou no início da noite. Comunicam-se e voam orientados por sons de alta frequência que, emitidos pela boca ou narinas, ao encontrar um obstáculo retornam em forma de ecos. Esses ecos são captados pelos seus ouvidos e transformados em estímulos nervosos, possibilitando assim sua orientação. Utilizam também a visão e o olfato.
A alimentação dos morcegos varia conforme a espécie. Assim, existem os que se alimentam de frutos (frugívoros), de néctar e pólen das flores (nectarívoros), de insetos (insetívoros), de pequenos vertebrados (carnívoros) e sangue (hematófagos).
Os morcegos hematófagos são os famosos morcegos vampiros. São os mais populares dos morcegos devido a sua dieta: sangue. Por serem vetores da raiva bovina tiveram muitas colônias dizimadas, o que na última década têm diminuído com a vacinação do gado contra a doença. Eles se alimentam exclusivamente de sangue de vertebrados, sendo os únicos a terem essa especialização. Há apenas três espécies no mundo, que ocorrem apenas nas Américas. Duas atacam aves (Diphylla ecaudata e Diaemus youngii) e uma ataca aves e mamíferos (Desmodus rotundus).
De acordo com o hábito alimentar e a espécie os morcegos podem se abrigar em diferentes locais. Morcegos insetívoros, principalmente em áreas urbanas, utilizam como abrigo diurno cumeeiras, forro de edificações, juntas de dilatação dos prédios, caixas de persianas, chaminés e dutos de ventilação, entre outros.
O habitat do Desmodus rotundus (hematófagos) é geralmente fendas, cavernas, árvores, poços antigos, minas, ocos de árvores, casas e edifícios abandonados, preferencialmente próximos a corpos d’água. Vivem em colônias que podem agregar até 2 mil animais. Mais comumente, encontram-se cerca de 100 morcegos por colônia.
Os morcegos nectarívoros abrigam-se em espaços mais amplos, tais como porões, sótãos, garagens ou outros locais poucos frequentados.
Os frugívoros abrigam-se geralmente em árvores com copas bem fechadas, sob as folhagens das árvores ou beirais de edificações.

IMPORTÂNCIA ECOLÓGICA

São animais muito importantes para o equilíbrio dos ecossistemas terrestres. Os insetívoros encontrados em quase todo o mundo representam a maior parte das espécies e fazem o controle populacional de pragas, sendo que um indivíduo pode comer 600 insetos por hora. Já os frugívoros espalham sementes dos frutos que comem através de suas fezes ou regurgito. Nectarívoros fazem a polinização de mais de 500 espécies de plantas, sendo essenciais na reprodução de muitas espécies.
Além disso, fazem parte da fauna brasileira e são, portanto, protegidos pela Lei Federal 9.605/98 (Lei do Meio Ambiente).
Devemos evitar a morte indiscriminada desses animais, conscientizando a população quanto à importância de manter vacinados (anualmente) contra a raiva os animais domésticos (cães e gatos) e os animais rurais (equinos e bovinos).

AGRAVOS PARA SAÚDE

Os morcegos não costumam “atacar”, mas, independentemente do seu hábito alimentar, mordem quando perturbados ou indevidamente manipulados. Se estiverem infectados, podem transmitir a raiva que é uma doença sempre fatal na ausência de pronto atendimento. Portanto, deve-se evitar o contato direto com estes animais.
Cabe ressaltar que os morcegos, ao adquirem a raiva, podem apresentar mudanças em seu comportamento, tais como atividade alimentar diurna e caídos no chão.
O acúmulo de fezes de morcegos e aves em locais com condições adequadas, como por exemplo, forro de edificações, pode propiciar o crescimento do fungo Histoplasma capsulatum, causando àqueles que inalarem os esporos uma doença respiratória, a histoplasmose.

MEDIDAS PREVENTIVAS

Nunca se deve tocar nos morcegos que eventualmente adentrem as edificações ou apareçam caídos no chão. Neste caso, se possível, imobilizar o animal jogando um pano ou caixa de papelão emborcada para baixo, de modo a mantê-lo preso. Em seguida, entrar em contato com o telefone 150, que enviará equipe para retirar o animal e encaminhá-lo para exame laboratorial de raiva e identificação da espécie.
Em residências ou ruas muito arborizadas, é comum encontrarmos morcegos frugívoros à procura de alimento ou utilizando essas árvores para abrigos diurnos, sendo que, muitas vezes, estes animais dão vôos rasantes em busca de frutos. Deve-se, portanto, colher os frutos maduros ou solicitar ao órgão público competente a poda de levantamento ou a substituição da árvore ou, ainda, simplesmente, evitar permanecer na sua rota de vôo, pois após o período de frutificação, estes morcegos irão para outros locais.
Os morcegos mordem para se defender e em caso de mordida ou mesmo um arranhado por morcegos faça o seguinte:
* Lave o local com bastante água e sabão.
* Não mate nem jogue fora o animal
* Procure orientação médica nas Unidades de saúde que realizam tratamento para a raiva mais próxima de sua casa imediatamente.
* Ligue para o 150.
* Isso é muito importante para você e para toda a comunidade, o morcego tem que ser examinado.
Em caso de contato com animais domésticos, procurar assistência veterinária ou a Divisão de Vigilância em Zoonoses.

Veja neste link as recomendações do CEVS para afugentar e/ou desalojar morcegos em diferentes tipos de situações:

https://cevs-admin.rs.gov.br/upload/arquivos/201611/03111914-1450292509-folder-manejo-e-controle-de-morcegos.pdf

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Fonte de pesquisa:
Reis, N.R.; Peracchi, A.L.; Pedro, W.A.; Lima, I.P. Mamíferos do Brasil. 1.ed. Londrina: Nélio R. dos Reis, 2006. 153-156p
https://www.birminghamzoo.com/
https://www.ufrgs.br/faunadigitalrs/mamiferos/ordem-chiroptera/familia-phyllostomidae/morcego-vampiro-desmodus-rotundus/