Andréia Calbar: dias de luta, dias de glória

A história de quem venceu quatro tumores, desafiou a medicina ao se tornar mãe e luta constantemente contra o transtorno bipolar, fibromialgia, entre outras doenças, sempre sem perder a fé e esperança em dias melhores

Por Portal de Notícias 08/02/2019 - 19:03 hs
Foto: Arquivo Pessoal
Andréia Calbar: dias de luta, dias de glória
Andréia Calbar luta contra diversas doenças, mas mantém a fé e perseverança

Carla Miller Trainini

“A vida me ensinou a nunca desistir

Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir
Podem me tirar tudo que tenho
Só não podem me tirar as coisas boas

Que eu já fiz pra quem eu amo
E eu sou feliz e canto

O universo é uma canção
E eu vou que vou

“História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias

Dias de luta, dias de glória”.

O ser humano nasce, cresce e se reproduz... Assim aprendemos na escola a teoria do que basicamente deveria acontecer durante a vida. No entanto, nem sempre a história é tão simples assim, como diz a letra da música “Dias de luta, dias de glória”, de Charlie Brown Jr, em que a superação dos obstáculos se torna essencial para a sobrevivência.
Durante este desenvolvimento, muitos ciclos necessariamente precisam ser vividos. São obstáculos que vão surgindo pelo caminho, conforme as escolhas vão sendo feitas. Muitas vezes, porém, as circunstâncias fogem do controle e acabam colocando em prova a fé e a perseverança em algo maior, algo em que se acredita ou não. Quando isso acontece, a força para lutar por um objetivo é colocada em cheque.
De acordo com a psicóloga Juliana da Rosa Linassi, pós-graduanda em Educação e Contemporaneidade pelo Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), Câmpus Charqueadas
, a palavra fé tem origem no Grego “pistia”, que remete a uma atitude de fidelidade.
- Quando a utilizamos, estamos colocando nossas forças em algo superior, confiando. O mesmo conceito se soma à esperança que nos move e que possui uma capacidade e habilidade adaptativa. Comprovadamente de maneira científica, a fé quando junto da esperança mostra que elas agem nas mudanças cerebrais e que as emoções que delas surgem acabam transformando e reforçando a mente, o corpo e o sistema imunológico, assim prevenindo doenças e realizando "milagres", o que já foi amplamente estudado. A prova disso é que a Organização Mundial de Saúde tem realizado investigações sobre os fenômenos da fé e da espiritualidade, como conceitos multidimensionais de saúde, considerando que ambas, junto às dimensões corporais, psíquicas e sociais, são vitais aos processos de melhora e cura das doenças - explica a psicóloga, que também está se formando em Terapia Comportamental Dialética.

FÉ E PERSEVERANÇA

Este é o caso da charqueadense de coração, Andréia Alves Calbar, que aos 40 anos já enfrentou quatro tumores e desafiou a medicina ao engravidar após ter recebido a notícia de diversos motivos que a impediriam de se tornar mãe. Entre tantos outros obstáculos enfrentados, também está a constante luta contra o transtorno bipolar e a fibromialgia, doenças para as quais ainda não existe cura. Porém, sem perder a fé em Deus, ela segue vivendo um dia após o outro, sempre com esperança de dias melhores.
- Como é difícil “ser eu”. Confesso, têm dias que nem eu me suporto e isso é muito triste de dizer. Mas gratidão é a palavra que me rege. Sei que minha missão aqui na Terra não foi cumprida ainda, porque vou conseguir ver meu filho crescer. Tenho muita fé e sou muito corajosa. Deus dá grandes batalhas aos melhores guerreiros e eu tenho certeza de que sou uma. “Fé e Gratidão” são meus nomes, do meu sobrenome que é “Andréia”. Deus no comando, sempre - salienta.

ONDE TUDO COMEÇOU

Foi aos 19 anos que sua vida começou a mudar. De origem humilde e tendo sido criada com muita rigidez, Andréia passou no vestibular para Administração, na Ulbra São Jerônimo. Um ano depois conseguiu o primeiro estágio da carreira, no Banrisul, também em São Jerônimo. Residia em Charqueadas e não ganhava vale transporte. Trabalhou durante um ano e dez meses na empresa, na época da implantação dos caixas eletrônicos. Depois passou por outro estágio na Tractebel, em Charqueadas, até que chegou ao banco onde todos os problemas de saúde começaram a surgir. Andréia é funcionária até hoje, porém, impedida de trabalhar. O contrato de estágio era de dois anos, mas em dez meses foi efetivada. Em julho deste ano, completará 10 anos de afastamento e também, 10 anos de luta para sobreviver.

O CASAMENTO E O PRIMEIRO SUSTO

Andréia casou-se aos 24 anos. Poucos dias antes de completar um mês de matrimônio, recebeu a primeira rasteira da vida. Foi em uma consulta a um otorrino por causa de uma alergia que recebeu o diagnóstico de um tumor de face em estágio avançado e que já havia se alastrado por grande área de seu rosto. No mesmo dia, o médico a encaminhou para o setor de oncologia e em oito dias estava internada para fazer a cirurgia devido à gravidade do tumor.
Ela explica que já estava quase atingindo seu olho e que só ia notar realmente quando chegasse a atingir a visão, o que já estava acontecendo. O tumor chegou a obstruir uma das narinas e o osso do céu da boca não existia mais, havia se transformado em cartilagem, uma carne esponjosa.
- Eu sentia muita dor de dente e não entendia de onde vinha, porque não tinha nenhuma cárie. Cheguei a fazer nove tratamentos de canal, sendo que três vezes em um mesmo dente e ainda tive que arrancá-lo. Tive que extrair muitos dentes, coloquei aparelho para tentar segurá-los e nada adiantou. Nenhum dentista havia percebido que era o tumor se manifestando. Em todos os profissionais pelos quais passei nunca me pediram algum tipo de exame que indicasse onde estava o problema, ninguém investigou. Eu não tinha nem um mês de casamento e minha mãe recém tinha perdido uma tia, também por causa de um câncer, quando descobri este tumor na face. Foram 18 horas de cirurgia e 21 dias de internação recebendo alimentação via sonda. Os médicos retiraram um tumor que media 11 por 7 centímetros – relata.

SEGUNDO TUMOR

Dois anos após o primeiro diagnóstico, novamente outra provação precisou ser enfrentada enquanto ainda recuperava a saúde. Dessa vez foi o colo do útero a ser atingido. Andréia explica que, por permanecer em constante alerta em função do histórico familiar e seu problema anterior, conseguiu descobrir bem no início. Passou por nova cirurgia e logo estava trabalhando novamente.
- Com tudo isso, o tempo foi passando. Depois da última cirurgia, parei de menstruar. Fiz diversos exames e descobri que eu não ovulava e que eu tinha síndrome dos ovários policísticos (distúrbio hormonal comum nas mulheres em idade reprodutiva, definido por um aumento de tamanho dos ovários, que criam várias bolsas cheias de líquido - cistos). Além disso, também tive uma trompa obstruída e endometriose – salienta Andréia sobre as consequências que o tumor havia causado em seu corpo.

SONHO DE SER MÃE

Quando estava com quase 30 anos, a vontade de ser mãe aflorou. Seu marido, Tiago, apoiou a decisão e Andréia conta que passou dois anos tentando engravidar pelo método natural e também por indução. Ouviu de seu médico que a qualidade de seu útero a impedia de virar mãe devido às consequências do último tumor.
A primeira alternativa pensada para driblar a situação foi inseminação artificial, mas o processo era caro e o plano de saúde não cobriria. Decidiram, então, entrar para a fila de adoção. Um mês antes da entrevista, ela passou muito mal e precisou ser internada às pressas no hospital.
- A entrevista estava marcada para setembro daquele ano, mas um mês antes comecei a passar muito mal no banco onde eu trabalhava. Eu perdi naquela vez cerca de nove quilos em menos de uma semana porque eu chegava para trabalhar, passava mal, tomava soro e voltava ao trabalho no dia seguinte, com muita dor. Nem água parava no meu estômago. Assim foi por vários dias. Até que certa vez passei muito mal e meus colegas decidiram me levar para o hospital porque viram que era ainda mais sério do que as outras vezes.
Foi neste momento que tudo mudou e o que parecia mais um obstáculo a enfrentar, acabou se tornando sua razão de viver.
- Meu marido saiu imediatamente do trabalho e foi com meu histórico médico embaixo do braço, com tudo o que eu já tinha passado. Neste momento foi diagnosticado primeiramente que eu tivesse fé, porque não havia esperança de que não fosse um novo tumor se manifestando.

MILAGRE DA VIDA