Riscos, processos e alternativas para o lixo eletroeletrônico

Riscos, processos e alternativas para o lixo eletroeletrônico

Até 2021, 52,2 milhões de toneladas métricas (Mt) de lixo eletroeletrônico serão geradas no mundo

Por Portal de Notícias 17/07/2018 - 10:31 hs
Foto: Vinícius Domingues / Multiverso IPA
Riscos, processos e alternativas para o lixo eletroeletrônico
Assim como o lixo doméstico, os resíduos eletroeletrônicos são descartados de forma equivocada

VINÍCIUS DOMINGUES / MULTIVERSO / CENTRO UNIVERSITÁRIO METODISTA-IPA

 

Até 2021, 52,2 milhões de toneladas métricas (Mt) de lixo eletroeletrônico serão geradas no mundo. O dado faz parte do relatório, divulgado em 2017, pela União Internacional de Telecomunicações da Organização das Nações Unidas (ONU) e ISWA – InternationalSolidWasteAssociation (Associação Internacional de Resíduos Sólidos). Se de um lado a produção cresce ano a ano, de outro, alternativas são criadas para frear os riscos que os equipamentos eletroeletrônicos oferecerem à saúde humana e ao meio ambiente. Um dos exemplos é o projeto Sustentare, do poder executivo do Rio Grande do Sul, através da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG).
Conforme a ONU, em 2016, o volume deste tipo de lixo chegou a 44,7 milhões de toneladas, sendo que apenas 8,9 milhões (20%) foram recicladas. O projeto 
Sustentare, desde 2017, reciclou 180 toneladas de resíduos eletroeletrônicos oriundos de 76 órgãos públicos estaduais. Muito além de reciclar, a iniciativa gaúcha promove a inclusão social de jovens em vulnerabilidade e oportuniza a geração de trabalho e renda a mulheres do Sistema Prisional.

O coordenador do projeto, César da Silva Telles, que atua na Procergs, Unidade Executora do Programa (UEP), explica a origem.

- Na realidade, a preocupação com a gestão ambiental não nasceu com o Sustentare. Ela é uma preocupação que veio a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que acabou consolidando um decreto que estabelece as premissas para que todo o Brasil pudesse se adaptar a uma questão crucial, a preservação do meio ambiente - revela.

No Rio Grande do Sul, ao longo dos últimos três governos, a partir de um conjunto de leis e projetos, chegou-se até o Sustentare, criado peloDecreto nº 53.307/2016.O programa surgiu visando à regularização e normalização de todo o descarte de eletroeletrônicos de órgãos estaduais, impedindo que os materiais fossem descartados de forma inadequada no meio ambiente. A iniciativa conta com três trilhas, para as quais os equipamentos são encaminhados: doação (ociosos), recondicionamento (recuperáveis) e descaracterização (inservíveis).


O engenheiro químico Mário Rogério Kolberg Soares, que atua há 36 anos na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (FEPAM-RS), considera alternativas como o projeto gaúcho, de extrema importância.
- Muito antes da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que impõe a responsabilidade à cadeia de distribuição, o compromisso pela destinação adequada do resíduo é de quem gera. Seja uma empresa privada ou pública. Então, o estado é responsável sim, por todos os eletroeletrônicos que descarta, como gerador de resíduos - afirma.

Mário também pondera sobre pontos que dificultam a execução da logística reversa, instituída através da PNRS,
 Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, e seu regulamento, Decreto Nº 7.404 de 23 de dezembro de 2010. Ele destaca que a medida encontra barreiras em questões burocráticas.

Soares também acredita que a logística reversa deve principalmente atender os consumidores, que estão totalmente desprotegidos em relação à destinação correta dos resíduos.

- Eu, como FEPAM, não consigo controlar o consumidor final. Uma empresa, eu posso licenciar, solicitar o plano de geração de resíduos e cobrar o encaminhando adequado. Mas como eu vou cobrar de pessoas privadas? É para eles que veio a logística e o acordo setorial - pondera.

De acordo com a ISWA, o Brasil ocupa a segunda posição entre os países do continente americano, que mais geram lixo eletroeletrônico, com 1,5 milhões de toneladas, somente em 2016. O primeiro colocado do ranking é os Estados Unidos, que produziu 6,3 toneladas. Na contramão, oSustentare em apenas um ano, capacitou aproximadamente 300 colaboradores, que auxiliam na baixa patrimonial dentro das repartições.

Os treinamentos não contribuem somente na destinação para uma das trilhas, mas também na conscientização e educação ambiental.

- O nosso objetivo também é inspirar as pessoas! Recentemente, participei do primeiro Congresso Sul-americano de Responsabilidade Ambiental, que aconteceu em Gramado. Lá, apresentamos o programa e eu conheci outras experiências. Cada vez mais, esse intercâmbio gera um consciente coletivo, que está baseado na importância de ter um cuidado maior com o meio ambiente, pois já começamos a sentir na pele as consequências disso - afirma César.

Para o engenheiro químico, a mudança do atual cenário está diretamente ligada ao caminho de educar a população.

- Eu quero devolver, mas aonde eu levo? Por isso, precisamos dos ecos pontos, que a princípio poderiam estar nas redes de lojas que comercializam esses equipamentos, que estão na cadeia de distribuição. Precisamos de um grande trabalho de conscientização sobre o descarte do lixo. As pessoas precisam ter o conhecimento que o lixo eletroeletrônico não pode ser descartado em qualquer lugar, porque ela também coloca em risco a própria saúde. Se o primeiro elo, que é o consumidor, for quebrado, o restante não anda - explica.


Os vilões invisíveis no lixo eletroeletrônico


-O eletroeletrônico hoje é considerado um dos lixos mais tóxicos, porque muito metal pesado é utilizado na produção. É importante evitar que isso chegue ao solo e lençóis freáticos – explica Telles ao lembrar que os equipamentos vão muito além do plástico, vidro, ferro, fios e outros elementos que fazem parte da montagem.

O engenheiro químico da FEPAM, explica porque os metais pesados como chumbo, cádmio, níquel e berílio, encontrados nos circuitos eletrônicos, trazem riscos quando descartados de maneira irregular.

- Se tudo isso for descartado no meio ambiente, ali vai ficar. Os metais não têm como se decompor, então irão contaminar o solo, as águas superficiais e subterrâneas. Será preciso então, uma investigação no solo para descobrir a extensão de toda a contaminação, para depois, promover a atividade de remediação ambiental - explica.

É comum encontrar espaços que se tornam depósitos de resíduos, principalmente em localidades retiradas de áreas urbanas. Soares considera que esse tipo de atitude põe a saúde humana em risco e torna evidente a falta de conhecimento sobre o assunto.
- Muitas vezes, alguns metais são metilados por bactérias e dessa forma, são absorvidos pelas raízes de vegetais e migram até mesmo para dentro do vegetal. Eles ficam depositados na raiz, no caule, nas folhas e às vezes em gramíneas, dependendo do capim existente na área. Vamos supor, que os animais acabem ingerindo a vegetação, esse metal irá voltar para ao ciclo de vida do animal contaminando a carne, o leite, enfim - explica.