EDITORIAL: “Tirem as crianças da sala”

Por Portal de Notícias 05/06/2018 - 15:39 hs
Foto: Banco de Dados

O bordão usado pelo jornalista e radialista Ricardo Boechat, quando anuncia alguma piada mais pesada do humorista José Simão, na rádio Band News, nunca foi tão presente na vida dos jeronimenses. “Tirem as crianças da sala!”, costuma dizer nesta hora.
Mas não havia piada a ser contada em São Jerônimo. O assunto era muito grave: a leitura de uma denúncia por “proceder de modo incompatível com a dignidade e o decoro do cargo” e “utilizar-se do mandato para a prática de atos de corrupção ou de improbidade administrativa” apresentada contra o vereador Amaro Jerônimo Vanti Azevedo (PDT). Infrações que necessitam ser apuradas e julgadas pelos vereadores, de acordo com o Decreto-Lei 201/1967, independentemente de qualquer decisão do Judiciário.
O secretário da Câmara de Vereadores chegou a parar a leitura e pediu a retirada do plenário de crianças integrantes de uma entidade tradicionalista que estavam presentes na sessão desta segunda-feira para serem homenageadas. Os fatos narrados na acusação eram, realmente, impróprios para menores. Sabe-se lá que impressão terá isso causado nestas crianças neste momento que deveria ter sido de alegria.
Um fato constrangedor, talvez o primeiro a entrar para os anais da Câmara de Vereadores. Sua gravidade, se comprovada, ensejaria a cassação do parlamentar.
O corporativismo, no entanto, falou mais alto e a mais grave e constrangedora denúncia da história da Câmara de Vereadores de São Jerônimo foi arquivada por seis votos a três, como se nada tivesse acontecido, em uma flagrante demonstração da síndrome do avestruz dos representantes da população.
Perderam os vereadores a oportunidade de honrar o nome do Parlamento Jeronimense, absolvendo ou cassando o vereador à luz das provas que seriam angariadas durante um processo justo.
A Câmara deixou nas mãos do Judiciário a apuração e julgamento dos atos supostamente cometidos pelo denunciado. Fatos estes muito mais preocupantes do que um simples relacionamento extraconjugal, já que envolvem a utilização do mandato na prática de corrupção ou improbidade administrativa que – se comprovados - implicariam em consequências também para o Executivo Municipal, sem participação do qual o vereador não poderia levar adiante os atos que lhe são imputados.
Bastava ao Legislativo investigar e tomar a decisão justa. Mas abriu mão em nome do corporativismo e do comprometimento de 70% dos parlamentares que detém familiares nomeados em cargos comissionados na Prefeitura.
Os vereadores preferem não enxergar, apesar de saberem que essa síndrome de avestruz só provocará mais atraso se demorarem a desenterrar a cabeça. Mas esquecem que, antes disso, a sociedade já percebeu que o sistema precisa ser mais vigiado que seus clubes de futebol, ou tão acompanhado quanto suas telenovelas. Por mais exagerado que possa ser essa comparação, ela ajuda a aquilatar a distância a ser percorrida para que haja uma verdadeira mudança nas relações políticas locais.