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São Jerônimo, RS,19/08/2026

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Cães e gatos: por que não podem receber os mesmos cuidados de saúde

Diferenças no metabolismo, na alimentação, no comportamento e na resposta aos medicamentos exigem abordagens veterinárias específicas

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Cães e gatos: por que não podem receber os mesmos cuidados de saúde Eles dividem o sofá, disputam a atenção dos responsáveis e ocupam um espaço cada vez maior nas famílias brasileiras.

Eles dividem o sofá, disputam a atenção dos responsáveis e ocupam um espaço cada vez maior nas famílias brasileiras. A convivência pode ser harmoniosa, mas cães e gatos pertencem a universos biológicos distintos. Da alimentação ao comportamento, da forma de demonstrar afeto à maneira de metabolizar medicamentos, cada espécie reúne características que pedem cuidados específicos.

“Cães e gatos possuem necessidades nutricionais, comportamento, metabolismo e, principalmente, respostas aos medicamentos muito particulares. Quanto maior o conhecimento dos responsáveis sobre essas diferenças, melhor a qualidade de vida dos animais e mais seguros e eficazes se tornam os tratamentos”, explica a médica-veterinária e consultora da DrogaVET, Dra. Farah Ramalho.

Biologia e comportamento

Originados dos ancestrais de lobos, os cães passaram por um longo período de domesticação e desenvolveram intensa capacidade de convivência social e de interpretação de sinais humanos. Os gatos descendem do gato-selvagem-africano (Felis silvestris lybica) e se aproximaram das comunidades humanas atraídos pelos roedores presentes nas áreas agrícolas. Como seguiram uma trajetória diferente, conservaram maior autonomia e forte instinto de caça.

Essas diferenças permanecem na rotina. Cães tendem a buscar interação com mais frequência; gatos costumam valorizar previsibilidade, controle do ambiente e locais de refúgio. São tendências, não regras: idade, personalidade, experiências anteriores, saúde e manejo influenciam cada animal.

Na alimentação, cães são onívoros com forte adaptação ao consumo de alimentos de origem animal e conseguem utilizar nutrientes de fontes variadas quando recebem uma dieta completa e equilibrada. Gatos são carnívoros estritos e dependem de nutrientes encontrados em tecidos animais, como taurina, arginina, ácido araquidônico, vitamina A pré-formada e niacina. 

A hidratação também merece atenção: muitos felinos ingerem pouca água espontaneamente e podem produzir urina mais concentrada. Diferentes pontos de água, recipientes limpos e alimentos úmidos, quando indicados pelo médico-veterinário, podem favorecer o consumo hídrico.

A comunicação segue códigos próprios. Cães combinam vocalizações, postura, cauda, orelhas e expressões faciais. Gatos emitem sinais mais sutis, como piscadas lentas, mudanças na posição das orelhas e das vibrissas (bigodes), vocalizações específicas e o hábito de esfregar o corpo em objetos e pessoas. Interpretar esses sinais reduz o estresse e fortalece o vínculo com o responsável.

Na farmacologia, espécie não é detalhe

A forma como cada organismo absorve, distribui, metaboliza e elimina um medicamento varia entre as espécies. Medicamentos seguros para cães podem representar riscos graves para gatos, e o contrário também é verdadeiro. Mesmo quando apresentam doenças semelhantes,  cães e gatos podem necessitar de princípios ativos, doses, intervalos e formas farmacêuticas diferentes. Peso é apenas um dos fatores: idade, condição clínica e outros medicamentos em uso também interferem na segurança do tratamento.

A ivermectina, por exemplo, é contraindicada para algumas raças caninas e seus cruzamentos, filhotes com menos de seis meses, fêmeas gestantes ou lactantes, cães com determinadas doenças hepáticas e neurológicas e animais com variantes no gene MDR1/ABCB1, pois apresentam maior risco de neurotoxicidade com determinadas doses de algumas lactonas macrocíclicas.

Para os felinos, há usos específicos, mas a margem de segurança depende muito da dose e da indicação. Formulações muito concentradas ou doses inadequadas podem causar intoxicação neurológica, com sinais como desorientação, falta de coordenação, tremores, alterações visuais, convulsões e redução do nível de consciência. A apresentação e a dose prescritas para outro animal nunca devem ser reaproveitadas.

O diclofenaco, anti-inflamatório comum na medicina humana, pode provocar lesões gastrointestinais e renais graves em cães e gatos. Não deve ser administrado sem prescrição veterinária. Já o carprofeno é empregado principalmente em cães. Seu uso em felinos é mais limitado e exige dose e intervalo específicos, pois dose, repetição e condição renal, hepática ou gastrointestinal podem aumentar o risco de reações adversas.

A permetrina, presente em alguns antiparasitários exclusivos para cães, é outro alerta. Em gatos, a exposição pode desencadear tremores, convulsões e alterações neurológicas potencialmente fatais. O risco inclui a aplicação indevida no felino e, conforme o produto, o contato próximo com um cão recém-tratado antes da secagem da área de aplicação.

“Esses exemplos mostram por que nunca se deve compartilhar medicamentos entre espécies. Mesmo quando os sinais clínicos parecem semelhantes, o que é seguro para um cão pode representar um risco importante para um gato”, alerta Farah.

Tratamento sob medida

Com o aumento da expectativa de vida dos animais de companhia e da convivência cada vez mais próxima com as famílias, cresce também a necessidade de tratamentos veterinários personalizados e seguros. Quando há prescrição e viabilidade farmacotécnica, a manipulação permite ajustar concentração, apresentação e sabor para facilitar a rotina. Biscoitos medicamentosos, molhos flavorizados, pastas orais, cápsulas, suspensões, sachês, géis transdérmicos e soluções dermatológicas, otológicas e oftálmicas estão entre as possibilidades. Nem toda via é adequada para qualquer princípio ativo; a decisão cabe ao prescritor, com avaliação técnica da farmácia.

Em situações selecionadas, diferentes princípios ativos podem ser reunidos em uma formulação, desde que exista compatibilidade e indicação clínica. A estratégia pode reduzir o número de administrações e favorecer a adesão, especialmente entre pacientes idosos ou com doenças crônicas.

“A adesão começa muito antes do efeito do medicamento. Ela começa no momento em que o animal aceita receber aquela medicação sem transformar cada dose em um momento de estresse para toda a família”, destaca a veterinária. Na medicina veterinária moderna, a individualização do tratamento considera não apenas a espécie, mas também idade, peso, condição clínica, doenças associadas e resposta individual de cada paciente.

Para os responsáveis, a orientação é simples: não compartilhar medicamentos, não adaptar doses por conta própria e procurar atendimento diante de sinais clínicos, suspeita de intoxicação ou dificuldade para administrar o tratamento.

Embora cães e gatos compartilhem o ambiente doméstico, eles apresentam diferenças biológicas profundas que exigem abordagens específicas na prevenção, no diagnóstico e no tratamento. Reconhecer essas particularidades é um dos pilares da medicina veterinária segura.




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