JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Amor: Woodstock, 50 anos

Na moral hippie as relações pessoais eram desprovidas de um sentido de posse do outro

JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Amor: Woodstock, 50 anos
O casal da foto, Bobbi e Nick Ercoline, está junto até hoje, casados e tudo

Uma das palavras que melhor descreve o Festival de Woodstock é "amor", em sentido amplo: sexual, social e espiritual, tudo isso amalgamado numa idiossincrasia só. Mesmo não estando no cartaz oficial de divulgação do evento, ela entrou, como vimos no texto de ontem, no famoso epíteto "três dias de paz, amor e música", até porque era o objetivo maior daquela geração nascida no pós-guerra.


Algo que realmente chocou as pessoas à época foi o hedonismo dos hippies no que tange ao sexo e a vida em grupo. Ainda choca. Talvez até mais agora do que naquele período. Mas o fato é que na moral hippie as relações pessoais eram desprovidas de um sentido de posse do outro, coerente com o caráter anticapitalista do movimento. O ficar junto era um ato que se dava por uma opção fudamentalmente de liberdade de escolha, com amor livre e despudor em relação à nudez do corpo.

Sendo o festival uma Exposição de Artes e Música "Aquariana", logo absolutamente hippie, é claro que o filme-documentário é recheado de momentos assim, pelo menos na versão do diretor. A cena onde centenas de jovens aparecem pelados banhando-se no lago, com muita naturalidade, é uma delas. Há várias outras em que a relação com o corpo é bastante descomplicada, assim como era em relação ao sexo. Não que o evento fosse uma bacanal ou orgia gigantesca, nada disso. Era tão somente uma relação descomplicada, de amor livre, nesse exato sentido. E, dentro disso, o espaço para o amor comprometido e tradicional também era normal, como nos mostra a imagem que ilustra esse texto, uma das mais conhecidas por estar na capa do LP triplo com as canções do festival: o casal da foto, Bobbi e Nick Ercoline, está junto até hoje, casados e tudo.

O amor na faceta social está expresso na solidariedade e no respeito entre os homens e destes para com a natureza, aspecto que permeou o evento. A preocupação com a ecologia, que viria a ser uma das tônicas das décadas seguintes, está muito presente em Woodstock, até por isso ele foi realizado numa propriedade rural. Já o amor entre as pessoas foi corporificado no respeito ao espaço, condição e as escolhas de vida dos outros, de uma forma radical, sem preconceitos de raça, gênero ou orientação sexual, enquanto que a solidariedade se via por todo o lado, do compartilhar o alimento ao agasalho, coisas assim. Não podemos esquecer a paz, que abordamos no texto anterior e que possui uma relação direta e íntima com a ideia de amor ao próximo, lembrando que, mesmo com as cerca de 450 mil pessoas presentes em Woodstock, nao foram registrados casos de violência ou ocorrências policiais.

Na questão espiritual, o amor se expressava por meio da pluralidade de credos ali presentes em harmonia, tanto de matiz ocidental quanto oriental (principalmente essa), realidade que o cineasta Wadleigh capturou com sua atenta câmera: o judeu Max Yasgur, dono da fazenda onde ocorreu o festival, falando ao público pelo microfone; as freiras católicas circulando pelo espaço, fazendo o gesto característico de Paz & Amor (mão espalmada para frente, somente com os dedos indicador e médio levantados); e o guru indiano Sri Swami Satchidananda, que esteve no local e também deu o seu recado ao público.

Amanhã, dia 17, que foi o último dia do festival (um domingo), falaremos sobre a música, o grande instrumento de comunicação social dos anos 1960.