JOÃO ADOLFO GUERREIRO | Paz: Woodstock, 50 anos

Nos próximos dias falaremos de seu significado, importância e legado

Há exatos cinquenta anos, numa sexta-feira, 15 de agosto de 1969, iniciava, aos acordes folk do violão de Richie Havens, o icônico, mítico, catártico e amalgâmico Festival de Woodstock, nos Estados Unidos.

Seria a quinta atração daquele dia, mas foi chamado às pressas para abrir o evento, visto que o público comparecia muito acima do previsto, congestionando as vias de acesso e retendo os músicos contratados na estrada. Havens, entre as canções, enquanto trocava uma corda do violão que arrebentara, disse: 
"Cem milhões de músicas serão cantadas hoje. Todas cantarão a mesma coisa e espero que todos tenham vindo aqui para ouvir. E é tudo sobre vocês, é verdade. E eu. E todos que estão aqui e os que não chegaram ainda. E os que lerão sobre vocês amanhã. É. E como vocês são demais. No mundo todo. Se puderem sacar essa verdade. A realidade disso."

Ficou três horas no palco e, ao final, improvisou a canção Motherless Child, incluindo nela a palavra "freedom", versão que está imortalizada no filme-documentário Woodstock (1970), do cineasta Michael Wadleigh, filmado durante o festival e que deixou registrado para as futuras gerações o que ele foi e significou.

No cartaz que ilustra esse texto, já vemos a sua tônica: "três dias de paz e música". Para a história, ficou conhecido pelo epíteto "três dias de paz, amor e música". Ocorrido no contexto histórico do pós guerra, da Guerra Fria, do Maio Francês de 1968, da Guerra do Vietnan, das lutas pelos direitos dos negros (Martin Luther King), dos homossexuais (Revolta de Stonewall), da Geração Beat, do Verão do Amor em São Franciso, do Movimento Hippie e da chamada Contracultura, o Festival de Woodstock ficou como símbolo e ícone de todo o caldo cultural oriundo da mentalidade jovem dos anos 1960, com preocupações com a ecologia, com formas alternativas de socialização ao modelo capitalista, com a possibilidade de costumes plurais no aspecto sexual, familiar, espiritual e religioso.

Esse espírito libertário anticapitalista, embora igualmente não adepto a utopias de tipo socialista ou comunista, gerou toda uma gama de lutas sociais que estiveram e continuam na ordem do dia nesses últimos cinquenta anos, atualmente contrastados e contestados fortemente pela onda conservadora que varre o Ocidente. Woodstock é icônico porque justamente foi uma catarse amalgâmica de tudo isso, num tempo e espaço exatos e propícios a tal.

Na apresentação igualmente improvisada do cantor de rock e soul Country Joe McDonald, a parte desse espírito jovem radicalmente afeito a uma cultura da paz e que, no caso específico dos Estados Unidos, tomava corpo na rejeição à Guerra do Vitenan e na recusa em se alistar para a mesma (como foi o caso do marido da cantora Joan Baez, que foi preso por isso), rendeu outro momento memorável registrado no filme de Wadleigh, onde o artista improvisa uma canção contra aquele conflito armado.

Nos próximos dois dias continuaremos falando de Woodstock, de seu significado, importância e legado.