Cemitério Maldito

Nova versão entrega terror com muita qualidade técnica e dramática

Por Filmes & Séries - Marcelo Figueiró 24/05/2019 - 11:36 hs

Normalmente as releituras de clássicos entregam um produto bem inferior do seu original. Dificilmente os novos condutores conseguem emular o clima que transformou a história em obra prima. Podemos citar várias películas, dos últimos anos, que caíram nesta armadilha. No terror foram feitas péssimas novas adaptações para “A Hora do Espanto” (1986 e 2011), “O Chamado” (2002/2017), “Horror em Amitivile” (1979 e 2005), a “Hora do Pesadelo”(1984 e 2010) e até em “Alien” (1979/2017) ou “ O Predador” (1987 e 2018). Provavelmente muitos destes filmes você nem sabia que tinham remake, de tão ruim que ficou a cópia. No entanto, as refilmagens das obras de Stephen King estão conseguindo escapar desta tendência. Ano passado tivemos a ótima reapresentação de “IT”, sobre o palhaço macabro, que foi produzido em duas partes. Já em 2019, fomos presenteados com a bem elaborada refilmagem de “Cemitério Maldito”, sucesso dos cinemas, lançado há trinta anos.

ENCONTRANDO A PAZ ETERNA

Em Cemitério Maldito a família Creed vai morar no interior, buscando paz e tranquilidade para criar seus filhos. O pai,  Louis (Jason Clarke) é um médico que decide abandonar a extenuante rotina da cidade para ter mais tempo com a esposa Rachel (Amy Seimetz), a filha Ellie (Jeté Laurence) o filho, Gage (Hugo Lavoie e Lucas Lavoie), e o gato Church. Ao chegarem na nova casa, na beira de uma enorme rodovia, descobrem que a área de sua propriedade é grandiosa. Não demora para a pequena Elie explorar o território e descobrir que dentro dele se encontra um cemitério de animais de estimação. No cemitério ela conhece o idoso Jud (John Lithgow), que parece conhecer tudo naquela região e logo se afeiçoa a menina e sua família.



INFERNO ASTRAL

A garota parece não se adaptar na nova casa. Para piorar, em sua festa de aniversário, seu gato foge e acaba morto por atropelamento na rodovia. Ao encontrar o corpo do animal, Jud propõe ao médico que eles o enterrem a noite, para não chocar a menina. Logo os dois se dirigem ao cemitério de animais. Chegando lá, Jud se apieda da pequena e propõe que o pai leve o gato até um lugar um pouco mais distante. Eles carregam o corpo do bicho até um cemitério índio amaldiçoado, que ressuscita o que nele é sepultado. Não demora e o gato retorna vivo para a residência dos Creed. Mas o animal que volta é muito mais violento e maligno que o bichano atropelado. Será que estas mudanças também ocorreriam se um ser humano fosse enterrado no cemitério maldito¿ É isto que a família de Louis está prestes a descobrir.

QUALIDADE COMO HERANÇA

A diferença desta cópia de Cemitério Maldito, em relação a de 1989, é que no passado o filme foi tratado como trash. Embora tenha qualidade, o antigo longa foi feito com pouquíssimos investimentos, tornando-se clássico pelo ótimo enredo e pela música tema, dos Ramones, que fez sucesso naquela geração. Já a direção atual apercebeu-se que o mercado de filmes de terror é extremamente rentável e resolveu investir mais na produção. As locações, embora não pareçam ser feitas em CGI, são de uma qualidade enorme. Enquanto o Cemitério de 1989 era um lugar ermo, sem causar muita estranheza, o atual é apavorador. Outras situações como o acidente com o caminhão na rodovia também são bem diferentes. No passado se escondeu o evento, por não ser possível mostrá-lo em toda grandeza. No filme de hoje é feito uma filmagem “slow motion” que traz em detalhes uma jamanta perdendo a direção e se fechando em L, numa terrível conclusão.



A INTERPRETAÇÃO FINAL

A interpretação também é muito diferente nesta cópia. Em 1989 tivemos atores desconhecidos para interpretar os personagens. Já no filme atual são escalados grandes astros como Jason Clarke, John Lithgow, e a pequena, mas ótima, Jeté Laurence. Eles conseguem dar uma profundidade a personalidade dos protagonistas que o longa de 1989 sequer raspava. Mais que isto, desenvolvem muito bem a principal questão da obra: A morte seria o pior dos acontecimentos ou as vezes encontrar-se com o fim é melhor que continuar de outra forma. Esta é uma dúvida profunda, que permeia todo o enredo. Quanto aos sustos, óbvio que existem jump scares (pulos de medo), mas o que se sobressai é o terror psicológico, muito diferente do filme original.

VALE A PENA MORRER DE NOVO

“It” e “Cemitério Maldito” são duas ótimas surpresas das regravações das obras de Stephen King. Vamos torcer para que outras refilmagens tenham o mesmo tratamento. Isto será necessário quando tiverem a coragem de refazer filmes como “O Iluminado”(1980), “Cujo”(1983), “Cristine, o Carro Assassino”(1983) ou “Colheita Maldita”(1984). Que os novos diretores compreendam que, se o cinema de terror consegue um grande retorno financeiro, seus fãs merecem a qualidade que o lucro garante. Que não façam filmes trash, de grandes bilheterias. Aproveitem o dinheiro para realizar obras primas. Isto é fundamental para jamais deixar este gênero cinematográfico morrer. Até porque não existe um cemitério índio a disposição para ressuscitar, mais uma vez, estes longas, queridos pelos fãs. Mesmo que houvesse, vimos que o resultado desta experiência não é exatamente o ideal.

 

Elenco e citações

Dr. Louis Creed - Jason Clarke, O Exterminador do Futuro, 2015

Rachel Creed - Amy Seimetz, Alien: Covenant, 2017

Jud Crandall - John Lithgow, Interestelar, 2014

Ellie Creed - Jeté Laurence, Sand Castle, 2015

Gage Creed - Apresentando Hugo & Lucas Lavoie