O São Francisco da tia Nazinha

Francisco de Paula nasceu e morreu (1416 – 1507) durante um período movimentado da história europeia

A minha madrinha e tia-avó paterna, Nair José Guerreiro, mais conhecida por Tia Ná ou, simples e carinhosamente, Nazinha, frequentemente me dizia quando íamos ao seu apartamento em Porto Alegre:- João Adolfo, o quadro dos meus 15 anos e a imagem de São Francisco vão ficar pra ti quando eu morrer.

- É São Francisco de Assis, tia Nazinha? – perguntei, da primeira vez que ela falou disso.
- Não, esse é São Francisco de Paula, o de Assis é outro, não esse.
Em novembro de 2013, aos 101 anos, Tia Ná faleceu e eu fiquei com os ditos e também com o álbum de fotos de sua festa de aniversário de 100 anos. A imagem (foto que ilustra essa crônica) é alusiva ao centenário da então Freguesia de Pelotas, da qual São Francisco de Paula é padroeiro. É de 1912, mesmo ano em que o Titanic afundou, que foi construído o primeiro farol da praia de Torres e que minha madrinha nasceu; logo, tem 107 anos. É difícil encontrar uma estatueta do santo, até mesmo em lojas católicas. Achei uma, apenas uma, depois de muito procurar, numa banca no Mercado Público de Porto Alegre.
O motivo de eu estar escrevendo sobre isso é que São Francisco, o da tia Nazinha, ou seja, o de Paula, completou recentemente 500 anos de canonização, ocorrida em 1º de maio de 1519, durante o pontificado do papa Leão X. Francisco nasceu em 27 de março de 1416 na cidade de Paola, na Itália, filho de um casal de agricultores pobres. O nome lhe foi dado em agradecimento ao outro Francisco, o de Assis, a quem os pais pediram a graça de gerarem um filho, eis que há muito tentavam, sem sucesso.
Francisco de Paula nasceu e morreu (1416 – 1507) durante um período movimentado da história europeia: o do Renascimento, da Reforma Protestante e das grandes navegações que descobriram a América e o Brasil. Assim, foi contemporâneo de Leonardo Da Vinci (1452 - 1519), Martin Lutero (1483 - 1546), Cristóvão Colombo (1451 - 1506), Américo Vespúcio (1454 - 1512) e do grande Pedro Álvares Cabral (1467 - 1520), que via tudo do alto de seus 1,90 de altura, um gigante para a época. Coincidentemente, São Francisco é padroeiro dos marinheiros, eis que um dos milagres que lhe é atribuído é atravessar, certa feita, o estreito de Messina (3,3 km na menor distância), na Itália, usando seu manto estendido como embarcação e vela. Uau syl!
Acharam demais essa? Pois ainda não viram nada! São Francisco foi um santo com muitos poderes, dentre eles: ressuscitar mortos, curar doentes e profetizar. Profetizou, dentre outras fatos, que os turcos conquistariam Constantinopla e que invadiriam a Itália. Até sua “segunda morte” ele predisse (a “primeira”, literal, foi na Sexta-feira Santa de 1507)! Isso mesmo, anteviu que seu corpo, incorrupto, seria retirado do túmulo e queimado. E assim o fizeram protestantes calvinistas em 1562. Já ressuscitar mortos foi, digamos, uma especialidade sua. Dentre os vários casos relatados, consta que chegou a devolver duas vezes a vida a uma pessoa: trata-se de Tomás de Yvre, que trabalhava na construção de um convento e, certa feita, uma árvore caiu sobre o mesmo, matando-o. Francisco ressuscitou-o. Um tempo depois, o azarado ou imprudente Tomás caiu do alto do campanário. Lá foi São Francisco de novo, para sua sorte.
E, mesmo analfabeto, possuía sabedoria e o dom da palavra, sendo conselheiro de reis. Contudo, paradoxalmente, essa vida religiosa ímpar iniciou quando seus pais, em retribuição às graças de São Francisco de Assis (1181 - 1228), o enviaram ainda muito jovem para o convento franciscano de São Marcos. Um ano depois de sair de lá, inspirado pelo exemplo de São Bento, tornou-se ermitão, morando numa caverna que encontrou numa montanha rochosa. Ali, viveu seis anos, totalmente imerso na contemplação e na penitência, alimentando-se de raízes e ervas. Aos 19 anos conseguiu autorização do bispo local para construir um mosteiro, que originou a Ordem dos Mínimos, por ele concebida. Nela, se vive numa Quaresma perpétua, ou seja, numa abstinência alimentar rígida. Seus principais preceitos são a humildade, a penitência e a caridade, todas praticadas por São Francisco durante a sua vida.
Nessa crônica fiz tão somente um resumão sobre tudo o que envolve o santo, muito mais quem se interessou pode encontrar no oráculo tecnológico pós-moderno Google. Voltando à minha infância, para finalizar, lembro que eu gostava muito dos grandes navegantes e de suas naus e caravelas, tanto que vivia as desenhando e pintando com lápis de cor. Tia Nazinha mantinha sempre papel e lápis em sua casa para eu desenhar e colorir quando lá estivesse. Um ano antes de morrer, ela me devolveu um desses desenhos, que guardara para si. Ah, as minhas caravelas coloridas! Eu não cheguei a ser marinheiro, meu sonho de guri. Entretanto, a imagem do padroeiro São Francisco de Paula, da tia Ná, encontra-se pendurado na parede da minha sala, o que me faz recordar sempre dela e dos meus desejos de criança...